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Semana do Climatério · Artigo 13 · Saúde da mulher

Terapia hormonal foi associada a 22% menos eventos cardiovasculares: o que esse novo estudo realmente significa?

Um estudo de 2026 encontrou menor risco cardiovascular em mulheres que iniciaram terapia hormonal na meia-idade, principalmente quando o tratamento começou próximo da menopausa. Mas o resultado não autoriza prescrever hormônio para prevenir infarto.

Dr. Hugo Faria · Cardiologia · Outubro 2026 · Leitura de 4 min

Poucos temas em menopausa geram tanta confusão quanto a relação entre terapia hormonal e doença cardiovascular.

Durante anos, muitas mulheres ouviram que hormônios aumentariam o risco de infarto.

Posteriormente, surgiu o conceito da janela de oportunidade, segundo o qual idade e tempo desde a menopausa modificam o perfil de risco.

Agora, um estudo publicado em setembro de 2026 no JAMA Internal Medicine acrescentou uma peça importante a essa discussão.

Wang e colaboradores analisaram dados de 2.737 mulheres com sintomas vasomotores participantes do Study of Women’s Health Across the Nation, SWAN, utilizando uma metodologia de emulação de ensaio-alvo. [1]

O resultado chamou atenção:

mulheres que iniciaram terapia hormonal apresentaram estimativa de hazard cardiovascular 22% menor, uma medida relativa que não corresponde a redução absoluta de 22 pontos percentuais.

O hazard ratio ajustado foi (hazard é a taxa instantânea de ocorrência de eventos ao longo do tempo):

aHR 0,78; IC95% 0,62 a 0,98. [1]

01 O que foi considerado evento cardiovascular?

O desfecho composto incluiu:

Ao longo de aproximadamente 20 anos de acompanhamento, ocorreram 224 eventos fatais ou não fatais.

02 Timing: o achado mais interessante

Quando as mulheres iniciaram terapia hormonal até 10 anos após o início da menopausa, a associação pareceu ainda mais favorável:

aHR 0,73; IC95% 0,58 a 0,93.

Ou seja, uma estimativa de aproximadamente 27% menor risco.

Já entre aquelas que iniciaram depois de mais de 10 anos:

aHR 1,53; IC95% 0,66 a 3,52.

O intervalo de confiança é amplo, portanto não permite concluir aumento de risco, mas o contraste reforça a importância do timing. [1]

03 E mulheres negras?

O estudo encontrou uma interação interessante por raça/etnia.

Entre mulheres negras:

aHR 0,51; IC95% 0,33 a 0,81.

Não houve efeito claramente demonstrável nos outros grupos.

Esse resultado é intrigante, mas deve ser interpretado com cautela e precisa de confirmação. [1]

04 Então terapia hormonal previne infarto?

Não podemos concluir isso.

Esse é o ponto mais importante do artigo.

O estudo é observacional.

Mesmo utilizando técnicas sofisticadas para tentar reproduzir um ensaio clínico, não existe randomização real.

Portanto, permanecem possibilidades como:

Os próprios autores são explícitos:

os resultados não devem ser utilizados para apoiar terapia hormonal como estratégia de prevenção cardiovascular. [1]

05 Por que “emulação de ensaio-alvo” é interessante?

Esse método tenta estruturar uma análise observacional como se estivesse simulando os elementos de um ensaio randomizado ideal.

Define-se, por exemplo:

É uma metodologia mais sofisticada do que simplesmente comparar usuárias versus não usuárias.

Mas continua dependente da qualidade dos dados observacionais e do controle dos confundidores.

06 Como esse resultado conversa com os ensaios randomizados?

Uma análise secundária dos ensaios WHI publicada em 2025 encontrou que, entre mulheres de 50 a 59 anos com sintomas vasomotores, terapia hormonal aliviou os sintomas sem aumento significativo do risco aterosclerótico, enquanto mulheres com 70 anos ou mais apresentaram maior risco cardiovascular. [2]

As duas linhas de evidência apontam na mesma direção conceitual:

idade e timing importam.

Mas isso ainda não transforma TH em medicamento cardiovascular preventivo.

07 Qual a interpretação correta?

A conclusão mais defensável é:

em mulheres sintomáticas, de meia-idade, próximas da menopausa e adequadamente selecionadas, a terapia hormonal não deve ser automaticamente considerada cardiotóxica.

Essa é uma conclusão muito diferente de dizer:

Use hormônio para evitar infarto.

08 O que isso muda na prática?

Quando uma mulher de 51 anos, saudável, recentemente menopausada e com sintomas importantes procura tratamento, o medo genérico de “hormônio causar infarto” não deve ser a única razão para negar terapia.

Devemos avaliar:

09 E se ela já tem doença cardiovascular?

Essa é outra situação.

Os resultados deste estudo não devem ser extrapolados indiscriminadamente para:

Essas mulheres exigem avaliação especializada.

10 Conclusão

Este novo estudo é importante não porque prova que hormônio protege o coração.

Ele é importante porque reforça uma ideia:

o risco cardiovascular da terapia hormonal depende profundamente de quem é a paciente e de quando o tratamento começa.

A terapia hormonal continua sendo tratamento para sintomas da menopausa, e não para prevenção de infarto.

Mas o discurso de que “hormônio faz mal ao coração” também se tornou cientificamente inadequado quando aplicado indiscriminadamente.


Leia também

Menopausa e coração: como o climatério modifica o risco cardiovascular?

Referências
1. Wang Z, Swanson SA, Brooks MM, et al. Menopausal hormone therapy and cardiovascular risk in midlife women with vasomotor symptoms. JAMA Intern Med. 2026 Sep 8 [Epub ahead of print]. DOI: 10.1001/jamainternmed.2026.2922
2. Rossouw JE, Aragaki AK, Manson JE, Szmuilowicz ED, Harrington LB, Johnson KC, et al. Menopausal hormone therapy and cardiovascular diseases in women with vasomotor symptoms: a secondary analysis of the Women’s Health Initiative randomized clinical trials. JAMA Intern Med. 2025;185(11):1330-1339. DOI: 10.1001/jamainternmed.2025.4510
3. Oliveira GMM, Almeida MCC, Arcelus CMA, Espíndola LN, Rivera MAM, Silva-Filho AL, et al. Diretriz Brasileira sobre a Saúde Cardiovascular no Climatério e na Menopausa, 2024. Arq Bras Cardiol. 2024;121(7):e20240478. DOI: 10.36660/abc.20240478

Material educativo; não substitui consulta nem avaliação individual. A decisão sobre qualquer tratamento depende da sua história e deve ser tomada com o seu médico.

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