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Semana do Climatério · Artigo 02 · Saúde da mulher

Terapia hormonal na menopausa: quem realmente deve fazer?

Veja quando a terapia hormonal pode ajudar, como idade e tempo desde a menopausa importam e por que a decisão é individual.

Dr. Hugo Faria · Cardiologia · Outubro 2026 · Leitura de 4 min

Durante décadas, a terapia hormonal da menopausa passou por movimentos quase opostos.

Em determinado período, chegou a ser vista como uma estratégia que poderia ser utilizada amplamente após a menopausa.

Depois da publicação inicial do Women’s Health Initiative (WHI), em 2002, ocorreu uma mudança radical: muitas mulheres e até profissionais passaram a enxergar qualquer terapia hormonal como potencialmente perigosa.

Hoje sabemos que os dois extremos são inadequados.

A medicina moderna não pergunta simplesmente se terapia hormonal é “boa” ou “ruim”.

A pergunta correta é:

para qual mulher, com qual indicação, em qual momento e utilizando qual estratégia?

01 Qual é a principal indicação?

A terapia hormonal da menopausa é o tratamento mais eficaz disponível para os sintomas vasomotores, principalmente:

Esses sintomas podem parecer banais para quem nunca os experimentou, mas em algumas mulheres comprometem de forma significativa:

As recomendações internacionais e brasileiras continuam reconhecendo a TH como a intervenção mais eficaz para esse grupo de sintomas.[1,2]

02 Outros benefícios

A terapia hormonal também pode:

O estrogênio sistêmico é eficaz para prevenção da perda óssea observada nos primeiros anos após a menopausa.[3]

Isso não significa, entretanto, que terapia hormonal seja automaticamente a primeira escolha para toda mulher com osteoporose.

A decisão depende do risco de fratura, idade, sintomas climatéricos e existência de outras opções terapêuticas.

03 Síndrome geniturinária: nem sempre é necessário tratamento sistêmico

Mulheres com ressecamento vaginal, ardência ou dor durante a relação podem apresentar síndrome geniturinária da menopausa.

Quando esses são os únicos sintomas relevantes, a mulher pode se beneficiar de tratamento local.

Estrogênios vaginais em baixas doses apresentam eficácia para diversos sintomas geniturinários e expõem o organismo a uma quantidade muito menor de hormônio sistêmico do que a terapia utilizada para fogachos.[2,3]

Portanto, uma mulher com apenas ressecamento vaginal não necessariamente precisa receber tratamento hormonal sistêmico.

04 Quem tende a apresentar a melhor relação benefício-risco?

O conceito de janela de oportunidade é importante.

Em geral, para mulheres:

a relação entre benefícios e riscos da terapia hormonal tende a ser favorável.[1,2]

As diretrizes recomendam seleção individualizada, considerando sintomas e risco basal. [1]

Mas esses limites não devem ser interpretados como números absolutos.

Uma mulher não se torna automaticamente “inadequada” no dia em que completa 60 anos.

O conceito existe porque idade e tempo desde a menopausa alteram o risco basal.

05 Insuficiência ovariana prematura e menopausa precoce

Existe ainda um grupo que merece tratamento conceitualmente diferente.

Quando a perda da função ovariana acontece muito antes da idade habitual da menopausa, o organismo passa a ficar exposto precocemente à deficiência estrogênica.

Isso pode ter impacto sobre:

Na ausência de contraindicações, diretrizes geralmente recomendam reposição hormonal até aproximadamente a idade habitual da menopausa natural.[1]

Nesse cenário, a comparação entre benefício e risco não deve ser feita da mesma maneira que em uma mulher que inicia terapia aos 60 anos.

06 Toda mulher assintomática deve utilizar hormônio?

Não.

A simples ocorrência da menopausa não constitui indicação automática.

Também não devemos prescrever terapia apenas porque:

Trata-se uma condição clínica, não um valor laboratorial isolado.

07 Terapia hormonal é tratamento “anti-aging”?

Não existe respaldo científico para utilizar terapia hormonal de forma indiscriminada com objetivos como:

Isso não significa que uma mulher adequadamente tratada não possa apresentar melhora indireta de vários aspectos da saúde.

Uma paciente que volta a dormir bem, por exemplo, pode ter melhora de disposição, humor e capacidade para atividade física.

Mas isso não transforma TH em medicamento para “anti-aging”.

08 E depois dos 60 ou 65 anos?

Também não existe uma obrigação universal de interromper o tratamento apenas em função da idade.

Uma mulher que iniciou tratamento adequadamente, apresenta benefício clínico, tolera bem e permanece sem contraindicações pode discutir continuidade após reavaliação periódica.

Iniciar terapia pela primeira vez aos 68 anos é uma situação diferente de continuar um tratamento iniciado aos 51 anos.

Essa nuance é essencial.

09 A pergunta correta

O objetivo da terapia hormonal não é “normalizar hormônios”.

É tratar problemas clínicos reais, utilizando a menor exposição eficaz e uma estratégia coerente com o perfil individual.

A boa terapia hormonal não começa pela prescrição. Começa pela seleção correta da paciente.
Referências
1. The 2022 Hormone Therapy Position Statement of The North American Menopause Society Advisory Panel. The 2022 hormone therapy position statement of The North American Menopause Society. Menopause. 2022;29(7):767-794. DOI: 10.1097/GME.0000000000002028
2. Oliveira GMM, Almeida MCC, Arcelus CMA, Espíndola LN, Rivera MAM, Silva-Filho AL, et al. Diretriz Brasileira sobre a Saúde Cardiovascular no Climatério e na Menopausa, 2024. Arq Bras Cardiol. 2024;121(7):e20240478. DOI: 10.36660/abc.20240478
3. American College of Obstetricians and Gynecologists. Hormone therapy for menopause [Internet]. [cited 2026 Oct 7]. acog.org

Material educativo; não substitui consulta nem avaliação individual. A decisão sobre qualquer tratamento depende da sua história e deve ser tomada com o seu médico.

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