Menopausa sem hormônios: quais são as alternativas para tratar os sintomas?
Conheça alternativas não hormonais para fogachos e outras queixas, com seus benefícios, limites e cuidados de segurança.
A Anvisa aprovou o fezolinetanto em junho de 2026. Atualizei as seções 05 e 06 com o que os estudos mostram, os cuidados com o fígado, os remédios que não combinam com ele e dois estudos de segurança publicados em 2026.
Terapia hormonal é extremamente eficaz para determinadas manifestações da menopausa.
Mas não é a única opção.
Algumas mulheres apresentam contraindicações.
Outras preferem não utilizar hormônios.
E outras simplesmente não precisam de terapia sistêmica.
Isso não significa que precisem conviver indefinidamente com sintomas importantes.
Existem alternativas.
01 Primeiro: qual sintoma estamos tratando?
Esse é novamente o ponto fundamental.
“Menopausa” não é um único sintoma.
Uma mulher pode procurar atendimento predominantemente por:
- fogachos;
- insônia;
- ansiedade;
- síndrome geniturinária;
- dor durante a relação;
- alterações de humor.
A melhor opção não hormonal varia de acordo com o problema.
02 Fogachos e sudorese noturna
Os sintomas vasomotores são os que possuem maior número de alternativas farmacológicas não hormonais.
A Menopause Society publicou um posicionamento específico sobre essas terapias em 2023. Entre as opções com evidência estão determinados:
- ISRS;
- IRSN;
- gabapentina;
- antagonistas de receptores de neurocinina, como o fezolinetanto. [1]
03 Antidepressivos
Alguns antidepressivos em doses relativamente baixas podem reduzir frequência e intensidade dos fogachos.
Entre os medicamentos estudados encontram-se:
- escitalopram;
- citalopram;
- paroxetina;
- venlafaxina;
- desvenlafaxina.
Isso não significa que a paciente precise estar deprimida.
O mecanismo utilizado para sintomas vasomotores é diferente da simples indicação psiquiátrica.
Também não significa que todos sejam intercambiáveis.
Cada medicamento possui:
- efeitos adversos;
- interações;
- contraindicações;
- características próprias.
04 Gabapentina
A gabapentina também pode reduzir sintomas vasomotores.
Pode ser particularmente interessante em mulheres com sintomas noturnos, embora efeitos como sonolência e tontura precisem ser considerados.
A Menopause Society reconhece gabapentina entre as alternativas farmacológicas com evidência. [1]
05 Antagonistas de neurocinina
Uma das grandes novidades dos últimos anos foi o desenvolvimento de tratamentos não hormonais direcionados às vias cerebrais responsáveis pela termorregulação.
Fezolinetanto
O fezolinetanto (fezolinetant, em inglês) é um antagonista do receptor NK3.
Com a queda do estrogênio, uma substância chamada neurocinina B passa a estimular demais o centro de controle da temperatura, no cérebro. O fezolinetanto bloqueia esse sinal, sem usar hormônio.
Foi aprovado nos Estados Unidos e na Europa em 2023. No Brasil, a Anvisa aprovou o fezolinetanto em 23 de junho de 2026 para sintomas vasomotores moderados a intensos associados à menopausa. [4] A empresa responsável anunciou a chegada às farmácias para o primeiro semestre de 2027; até lá, ainda não está disponível para compra. [5]
O quanto ele ajuda
Nos estudos SKYLIGHT 1 e 2, com cerca de mil mulheres, a dose de 45 mg reduziu cerca de 2,5 fogachos por dia a mais do que o placebo em 12 semanas, com melhora já na primeira semana e mantida por um ano. A intensidade também diminuiu. [6,7]
No estudo DAYLIGHT, feito apenas com mulheres que não podiam ou não queriam usar hormônio, a redução adicional foi de cerca de 2 fogachos por dia em 24 semanas, com melhora do sono. [8]
O placebo também reduz bastante os fogachos nesses estudos. Os números acima são o ganho além dele: relevante para quem tem muitos episódios por dia, mas menor que o da terapia hormonal, que continua sendo o tratamento mais eficaz para quem pode usá-la.
A existência dessa classe é importante porque oferece uma alternativa para mulheres que:
- não podem utilizar estrogênio;
- não querem utilizar estrogênio;
- não responderam a outras opções.
06 Mas existe uma questão de segurança
Fezolinetant pode, raramente, produzir lesão hepática grave.
Em 2024, a FDA adicionou boxed warning e reforçou a monitorização hepática. A orientação inclui exames antes do início, mensalmente nos primeiros três meses e novamente aos seis e nove meses. [2] A bula brasileira segue a mesma lógica: exame antes de começar, todo mês nos três primeiros meses e depois em intervalos definidos pelo médico. [4]
Nos estudos, as enzimas do fígado subiram mais de três vezes o normal em cerca de 2 em cada 100 mulheres com o remédio, contra cerca de 1 em 100 com placebo. Na maioria das vezes, a alteração aparece só no exame e volta ao normal com a suspensão.
O que os estudos de 2026 acrescentaram
Dois estudos publicados em 2026 analisaram as notificações de efeitos adversos enviadas à FDA desde a aprovação. O sinal mais forte foi o aumento das enzimas do fígado, muito mais do que quadros graves de lesão. E as alterações tendem a aparecer cedo: em mediana, entre 1 e 2,5 meses após o início, a maioria nos primeiros 100 dias. [9,10]
Esse tipo de estudo mostra sinais, não a frequência real do problema. Mas confirma por que os exames dos primeiros meses importam.
Cansaço fora do habitual, coceira, pele ou olhos amarelados, urina escura, fezes claras, náuseas ou vômitos, perda de apetite ou dor na barriga. Nesses casos, procure o médico e faça os exames do fígado.
Remédios que não combinam
O fezolinetanto é eliminado por uma enzima do fígado chamada CYP1A2. Alguns remédios bloqueiam essa enzima e aumentam muito o nível dele no sangue. A bula brasileira contraindica o uso junto com fluvoxamina, mexiletina, enoxacina e anticoncepcionais com etinilestradiol. [4] Outros remédios com o mesmo efeito, como o antibiótico ciprofloxacino, também precisam ser checados.
Por isso, quem usa fezolinetanto deve avisar o médico antes de começar qualquer remédio novo, inclusive antibióticos.
Quem não deve usar ou precisa de avaliação cuidadosa
- Não usar: na gravidez, com cirrose ou doença importante do fígado, com doença renal grave e junto com os remédios acima.
- Avaliar com cuidado: histórico de câncer de mama, uso de estrogênio, histórico de convulsões e amamentação.
Portanto:
Essa é uma mensagem importante.
Todos os medicamentos precisam ser analisados de acordo com benefício, risco e monitorização.
07 E clonidina?
Clonidina foi utilizada historicamente para sintomas vasomotores.
Hoje tende a ocupar papel menor devido à eficácia mais limitada e efeitos adversos em comparação com outras opções.
Ainda pode aparecer em determinadas diretrizes, mas não seria minha primeira escolha na maioria das pacientes.
08 Terapias comportamentais
Algumas abordagens não farmacológicas também possuem evidência.
Terapia cognitivo-comportamental pode ajudar determinadas mulheres a lidar melhor com:
- impacto dos fogachos;
- sono;
- sofrimento relacionado aos sintomas.
Ela não significa que os sintomas sejam “psicológicos”.
O objetivo é reduzir o impacto funcional e melhorar adaptação e qualidade de vida.
09 Perda de peso e sintomas vasomotores
Em mulheres com excesso de peso, perda ponderal pode contribuir para redução de sintomas em algumas situações.
Além disso, traz benefícios independentes sobre:
- metabolismo;
- pressão;
- mobilidade;
- risco cardiovascular.
Mas não deve ser apresentada como substituto universal da terapia.
10 E os fitoterápicos?
Esse é um terreno de muita publicidade.
Produtos à base de:
- soja;
- isoflavonas;
- cimicífuga;
- outras ervas;
são amplamente utilizados.
A evidência é heterogênea e frequentemente limitada.
“Natural” não significa automaticamente eficaz ou seguro.
Além disso, suplementos podem:
- interagir com medicamentos;
- variar em concentração;
- apresentar controle de qualidade diferente.
Portanto, precisam ser avaliados com o mesmo rigor crítico aplicado aos medicamentos.
11 Síndrome geniturinária
Se o principal problema for secura vaginal ou dor durante a relação, as alternativas são diferentes.
Podemos utilizar:
- hidratantes vaginais;
- lubrificantes;
- tratamentos locais específicos.
E mesmo mulheres que não são candidatas à terapia hormonal sistêmica podem, em determinadas situações, ser avaliadas para terapias locais.
Essa é uma decisão individualizada, especialmente em mulheres com histórico de câncer hormônio-dependente.
12 Sono
Quando a principal queixa é insônia, precisamos evitar atribuir tudo automaticamente à menopausa.
É necessário investigar:
- apneia;
- higiene do sono;
- ansiedade;
- consumo de álcool;
- medicamentos;
- síndrome das pernas inquietas;
- outras causas.
Tratar fogachos pode melhorar o sono quando estes são a causa da fragmentação.
Mas não é a única possibilidade.
13 Estilo de vida não é “tratamento alternativo”
Existe uma diferença importante.
Atividade física, alimentação, sono e controle de peso não devem ser vendidos como “cura natural da menopausa”.
Eles representam a base de saúde.
O exercício pode não eliminar todos os fogachos.
Mas reduz risco cardiovascular, melhora força, composição corporal e saúde óssea.
Por isso, seu valor vai muito além do controle de sintomas.
14 Quando usar terapia não hormonal?
Eu consideraria principalmente quando:
- existe contraindicação à TH;
- a paciente prefere evitar hormônios;
- os riscos superam os benefícios;
- houve intolerância;
- a resposta hormonal foi inadequada;
- existe indicação específica para determinada opção não hormonal.
15 Não existe hierarquia moral
Esse ponto merece destaque.
Utilizar hormônio não significa “tratar de verdade”.
Utilizar terapia não hormonal não significa “ser mais natural”.
O objetivo é o mesmo:
16 Conclusão
A medicina moderna do climatério não oferece apenas duas opções:
hormônio ou nada.
Existem diversas estratégias.
A escolha depende:
- do sintoma predominante;
- do risco individual;
- das contraindicações;
- dos efeitos adversos;
- das preferências da paciente.
Material educativo; não substitui consulta nem avaliação individual. Não use medicamentos sem prescrição e acompanhamento médico. A decisão sobre qualquer tratamento depende da sua história e deve ser tomada com o seu médico.
Climatério merece um olhar completo
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