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Semana do Climatério · Artigo 09 · Saúde da mulher

Hormônios bioidênticos, manipulados e pellets: o que sabemos até agora?

Compare molécula, manipulação e implantes hormonais por evidência, dose, farmacocinética, ajuste, segurança e lacunas.

Dr. Hugo Faria · Cardiologia · Outubro 2026 · Leitura de 6 min

A discussão sobre terapia hormonal na menopausa ficou mais complexa nos últimos anos.

Além das formulações tradicionais, comprimidos, géis, adesivos e preparações vaginais, aumentou muito o interesse por hormônios chamados “bioidênticos”, produtos manipulados e implantes hormonais, popularmente conhecidos como pellets.

O problema é que esses termos são frequentemente utilizados como se fossem equivalentes.

Não são.

E, do ponto de vista científico, precisamos separar três perguntas:

A molécula é fisiologicamente semelhante à produzida pelo organismo?

A formulação possui controle adequado de dose e farmacocinética?

Existe evidência clínica suficiente de eficácia e segurança para aquela indicação específica?

Essas são questões diferentes.

01 O que significa “bioidêntico”?

Bioidêntico descreve, em princípio, uma molécula cuja estrutura química é idêntica à do hormônio produzido pelo organismo humano.

Estradiol e progesterona micronizada são exemplos de moléculas que podem ser utilizadas em produtos farmacêuticos padronizados e cuja estrutura corresponde aos hormônios endógenos.

Portanto:

bioidêntico não significa manipulado.

Da mesma forma:

industrializado não significa necessariamente “sintético diferente do organismo”.

A expressão “bioidêntico” acabou adquirindo uma conotação comercial que frequentemente sugere “mais natural”, “mais seguro” ou “mais personalizado”.

Essas conclusões não podem ser feitas apenas a partir da estrutura química da molécula.

02 E os medicamentos manipulados?

Manipulação farmacêutica é uma ferramenta legítima e pode ser necessária em situações específicas.

Por exemplo, quando:

Entretanto, preparação individualizada não significa automaticamente que o produto tenha sido estudado em ensaios clínicos com a mesma extensão que determinadas formulações industriais.

O ACOG reconhece que formulações manipuladas podem ter papel em situações específicas, mas destaca que a evidência de segurança e eficácia de preparações individualizadas é muito mais limitada e que podem existir diferenças de concentração e absorção entre formulações. [1]

Isso é particularmente importante porque, em terapia hormonal, pequenas diferenças de exposição podem ter relevância clínica.

03 O que são pellets?

Pellets são implantes colocados no tecido subcutâneo que liberam o hormônio progressivamente.

Do ponto de vista farmacológico, possuem uma característica interessante:

oferecem exposição prolongada sem necessidade de administração diária.

Isso pode representar conveniência para determinadas pacientes.

Por outro lado, também existe uma característica importante:

após a implantação, a exposição não pode ser interrompida com a mesma facilidade de um gel, comprimido ou adesivo.

Portanto, vantagens e desvantagens precisam ser analisadas conjuntamente.

04 Existem estudos mostrando benefício?

Sim.

Existem estudos observacionais relatando melhora de sintomas em mulheres utilizando implantes de testosterona.

O próprio ACOG cita estudos nos quais mulheres pré e pós-menopáusicas relataram melhora de sintomas durante acompanhamento com pellets de testosterona. [1]

Isso significa que podemos afirmar:

há relatos de melhora clínica em determinadas populações, sem demonstração causal de eficácia nesses estudos.

Mas existe uma diferença importante entre isso e afirmar:

a eficácia e segurança de longo prazo estão definitivamente estabelecidas.

Grande parte dos estudos apresenta limitações como:

Portanto, o nível de evidência não é equivalente ao de grandes ensaios randomizados de determinadas formulações transdérmicas.

05 E a testosterona?

Aqui precisamos separar claramente a indicação da via.

A melhor evidência para testosterona em mulheres permanece relacionada ao tratamento de transtorno do desejo sexual hipoativo, HSDD, em mulheres pós-menopáusicas adequadamente avaliadas.

Grande parte dos ensaios que sustentam essa indicação utilizou testosterona transdérmica.

Consequentemente:

não devemos assumir automaticamente que todo resultado obtido com terapia transdérmica será idêntico com implantes.

Mas também é importante fazer a inferência inversa corretamente:

isso não significa que pellets sejam necessariamente ineficazes ou perigosos.

Significa simplesmente que a base de evidência é diferente e menos robusta.

Essa distinção é central.

06 Níveis suprafisiológicos

Outro ponto relevante é a exposição hormonal.

O objetivo da terapia com testosterona em mulheres não é alcançar níveis masculinos nem maximizar as concentrações séricas.

O objetivo, quando há indicação, é manter exposição compatível com a faixa fisiológica feminina.

Se uma formulação produz níveis persistentemente elevados, aumenta a preocupação com efeitos adversos androgênicos como:

Algumas dessas alterações podem ser persistentes.

Por isso, independentemente da via utilizada, a dose importa.

07 É possível monitorar pellets?

Sim.

Em mulheres que já utilizam implantes, especialmente de testosterona, dosagens séricas podem ser úteis para excluir exposição suprafisiológica.

O ACOG recomenda que, quando houver necessidade de avaliar testosterona em mulheres, métodos como espectrometria de massa apresentam maior precisão nas baixas concentrações femininas. [1]

A monitorização deve ser interpretada conjuntamente com:

08 E risco cardiovascular ou câncer?

Aqui encontramos uma das maiores lacunas.

Não dispomos de estudos randomizados de longa duração suficientemente robustos para definir com precisão o efeito dos pellets de testosterona sobre:

Alguns estudos observacionais sugerem resultados tranquilizadores ou até potenciais benefícios, mas apresentam limitações metodológicas importantes.

Portanto:

não devemos afirmar ausência de risco quando o risco ainda não foi adequadamente quantificado.

Mas também:

não devemos transformar falta de dados definitivos em prova de dano.

Essa é a postura científica apropriada.

09 Então os pellets devem ou não ser utilizados?

A resposta não deve ser ideológica.

A decisão precisa considerar:

A medicina baseada em evidências não significa utilizar apenas intervenções com décadas de ensaios clínicos.

Significa conhecer com clareza o nível de certeza que sustenta cada escolha.

10 O conceito mais importante

Personalização não é simplesmente escolher uma formulação diferente.

Personalização verdadeira significa:

selecionar a paciente correta, definir um objetivo terapêutico mensurável, utilizar uma exposição hormonal coerente com esse objetivo e acompanhar eficácia e segurança.

Essa análise também deve informar o acompanhamento de mulheres que já utilizam pellets.

Eles precisam ser avaliados com os mesmos critérios críticos utilizados para qualquer medicamento. O ACOG recomenda outras apresentações de testosterona em preferência aos pellets, devido às lacunas de segurança e à dificuldade de interromper a exposição. Isso é uma recomendação clínica e não demonstra que toda paciente terá dano.

Conclusão

Hormônios bioidênticos, manipulados e pellets representam conceitos diferentes.

Nenhuma formulação deve ser considerada automaticamente superior ou inferior apenas pela forma como é apresentada.

A pergunta correta é:

qual é a indicação, qual é a evidência, qual exposição hormonal estamos produzindo e quais riscos e benefícios conseguimos acompanhar?

Essa é uma discussão muito mais útil do que simplesmente classificar uma via como “boa” ou “ruim”.

Referências
1. American College of Obstetricians and Gynecologists. Compounded bioidentical menopausal hormone therapy. Clinical Consensus No. 6. Obstet Gynecol. 2023;142(6):1266-1273. acog.org
2. Davis SR, Baber R, Panay N, Bitzer J, Perez SC, Islam RM, et al. Global consensus position statement on the use of testosterone therapy for women. J Clin Endocrinol Metab. 2019;104(10):4660-4666. DOI: 10.1210/jc.2019-01603

Material educativo; não substitui consulta nem avaliação individual. A decisão sobre qualquer tratamento depende da sua história e deve ser tomada com o seu médico.

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