Tirzepatida protege o coração?
A tirzepatida reduz bastante a glicose e o peso. Mas isso significa menos infarto, AVC e morte? O SURPASS-CVOT, maior estudo da caneta, respondeu parte dessa pergunta, e as análises publicadas em 2026 acrescentaram dados sobre rins e insuficiência cardíaca.
01 O que o estudo comparou
O SURPASS-CVOT acompanhou 13.165 pessoas com diabetes tipo 2 e doença cardiovascular já estabelecida, como infarto prévio, AVC ou entupimento de artérias. A idade média era de 64 anos, o IMC médio de 32,6 e a hemoglobina glicada média de 8,4%. [1]
Metade recebeu tirzepatida semanal, até 15 mg. A outra metade recebeu dulaglutida 1,5 mg, uma caneta de GLP-1 que já tinha mostrado reduzir eventos cardiovasculares. Ou seja, a tirzepatida não foi comparada a placebo, e sim a um remédio que já protege o coração. O acompanhamento médio foi de cerca de quatro anos.
02 O resultado principal
A tirzepatida teve 8% menos eventos, mas a diferença não alcançou significância estatística. Na linguagem dos estudos: foi não inferior, mas não superior. [1]
Não inferior quer dizer que a tirzepatida protegeu pelo menos tanto quanto a dulaglutida, dentro de uma margem definida antes do estudo. Superior seria provar que protegeu mais, e isso o estudo não conseguiu demonstrar no seu objetivo principal.
| Desfecho | Tirzepatida | Dulaglutida | Tipo de análise |
|---|---|---|---|
| Infarto, AVC ou morte cardiovascular | 12,2% | 13,1% | Principal |
| Morte por qualquer causa | 8,6% | 10,2% | Secundária |
| Eventos renais graves | 6,0% | 7,6% | Exploratória |
| Composto coração e rins (6 itens) | 23,7% | 27,4% | Post hoc |
| Efeitos gastrointestinais | 42,5% | 35,9% | Segurança |
03 Por que emagrecer mais não bastou
A tirzepatida reduziu mais o peso e a glicose do que a dulaglutida. Mesmo assim, a vantagem em infarto, AVC e morte não foi clara. A explicação ainda está em aberto: as duas canetas compartilham parte do mecanismo, a comparadora já era protetora, e quatro anos podem ser pouco para separar dois tratamentos bons.
A lição vale para toda a cardiologia: exame melhor não é o mesmo que menos eventos. Peso e glicada importam, mas o que protege o paciente precisa ser medido em infartos, AVCs e mortes.
04 O que as análises de 2026 acrescentaram
Rins. Numa análise planejada desde o início, mas exploratória, eventos renais graves (perda importante de função, diálise, morte por doença renal ou piora acentuada da albumina na urina) ocorreram em 6,0% com tirzepatida e 7,6% com dulaglutida, 23% menos. A função dos rins também caiu mais devagar, principalmente em quem já tinha doença renal de alto risco. [2]
Coração e rins somados. Uma análise feita depois do estudo (post hoc), publicada no JAMA Cardiology, juntou seis desfechos: morte por qualquer causa, infarto, AVC, desobstrução de artéria com stent ou cirurgia, internação por insuficiência cardíaca e eventos renais. Ocorreram em 23,7% contra 27,4%, cerca de 16% menos com tirzepatida. [3]
Insuficiência cardíaca. Publicada em 15 de outubro de 2026, outra análise olhou os 20% de participantes que já tinham insuficiência cardíaca. Nesse grupo, morte ou eventos de insuficiência cardíaca foram cerca de 17% menos frequentes com tirzepatida. [4]
Elas são relevantes e apontam na mesma direção, mas são exploratórias. Não substituem o teste principal do estudo e não transformam o resultado de não inferior em superior. Servem para gerar hipóteses que precisam ser confirmadas.
05 Segurança
Náusea, vômito e diarreia foram mais comuns com tirzepatida: 42,5% contra 35,9%. Os demais eventos adversos foram semelhantes. [3] Na prática, subir a dose aos poucos, manter hidratação, cuidar da proteína e acompanhar a função dos rins fazem diferença, principalmente em pessoas mais frágeis.
06 O que muda na prática
Para quem tem diabetes tipo 2, doença cardiovascular e precisa controlar glicose e peso, o SURPASS-CVOT confirma a tirzepatida como uma opção segura do ponto de vista do coração, com sinais favoráveis para os rins. Com base nesse estudo, a FDA aprovou em agosto de 2026 o uso da tirzepatida para reduzir eventos cardiovasculares no diabetes tipo 2 de alto risco.
Duas cautelas. Primeiro, o estudo foi feito em pessoas com diabetes; para obesidade sem diabetes, a evidência de redução de eventos hoje é da semaglutida, no estudo SELECT. [5] Segundo, comparar o resultado do SURPASS-CVOT com o do SELECT ou do SOUL não é uma comparação direta entre os remédios, porque são estudos diferentes, com populações e comparadores diferentes. [5,6] Já na insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada e obesidade, a tirzepatida tem estudo próprio, o SUMMIT. [7]
Já expliquei como as canetas viraram remédio de coração em Canetas e coração e o efeito delas nos rins em Canetas, diabetes e rim.
Material educativo; não substitui consulta nem avaliação individual. O tratamento é individual e definido pelo médico. Não use medicamentos sem orientação.
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