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Semana do Climatério · Artigo 07 · Saúde da mulher

Testosterona na mulher: quando existe indicação?

Entenda a indicação de testosterona para HSDD e por que exame baixo, cansaço e promessas de vitalidade não bastam.

Dr. Hugo Faria · Cardiologia · Outubro 2026 · Leitura de 4 min

A testosterona não é um hormônio exclusivamente masculino.

Ela também está presente na fisiologia feminina e participa de diferentes funções.

O problema surge quando essa informação é transformada na ideia de que qualquer mulher com cansaço, baixa libido ou testosterona laboratorial baixa precisa “repor”.

A evidência não sustenta essa abordagem.

01 Existe “deficiência de testosterona feminina”?

As recomendações da IMS 2026 são claras:

não existe uma concentração sanguínea abaixo da qual possamos diagnosticar uma mulher como “deficiente em testosterona”. [1,2]

Além disso, muitos imunoensaios apresentam baixa precisão quando utilizados para medir as concentrações muito menores encontradas em mulheres.

Portanto:

testosterona baixa no exame não é, isoladamente, diagnóstico nem indicação de tratamento.

02 Qual é a indicação reconhecida?

A indicação baseada em evidências é:

transtorno do desejo sexual hipoativo, HSDD, na mulher pós-menopáusica.

Isso deve ocorrer após avaliação biopsicossocial adequada e correção de fatores modificáveis.[1,2]

A IMS atribui evidência de alta qualidade a essa indicação. [2]

03 Por que a avaliação precisa ser ampla?

Libido pode ser afetada por:

Por isso, testosterona não deve ser a primeira resposta automática para baixa libido.

04 Para que testosterona NÃO está indicada?

As recomendações de 2026 são particularmente claras:

os dados atuais não sustentam prescrição de testosterona para mulheres para outras condições além de HSDD pós-menopausa ou para prevenção de doenças. [2]

Portanto, não há indicação estabelecida para:

05 Formulação e dose importam

Os estudos que sustentam o benefício utilizaram predominantemente terapia transdérmica em doses capazes de manter concentrações na faixa fisiológica feminina.

O objetivo não é elevar testosterona para valores masculinos ou suprafisiológicos.

Isso é particularmente relevante na discussão sobre pellets.

06 E os riscos?

Exposição androgênica excessiva pode provocar:

Além disso, faltam dados robustos de longo prazo para determinadas formulações, especialmente implantes.

07 O princípio correto

Testosterona pode ser uma terapia legítima quando existe indicação adequada.

Mas não deve ser convertida em uma espécie de suplemento universal de vitalidade.

Hormônio é medicamento. O objetivo não é maximizar níveis; é tratar uma condição clínica comprovada.

+ Atualização de setembro de 2026: a FDA e a testosterona feminina

Em 17 de setembro de 2026, a FDA realizou um encontro público sobre o uso de testosterona em mulheres na menopausa. Não houve aprovação de produto. A discussão ajuda a entender por que ainda faltam formulações femininas.

O problema da ausência de produtos femininos

Quando não existe uma formulação especificamente desenvolvida para mulheres, o médico pode precisar adaptar uma apresentação originalmente destinada aos homens.

Isso cria dificuldades práticas.

A dose utilizada em mulheres costuma ser muito menor.

Consequentemente, a precisão na quantidade administrada passa a ser especialmente importante.

A ausência de produtos especificamente formulados para o sexo feminino pode resultar em:

É justamente esse um dos argumentos utilizados por especialistas que defendem desenvolvimento regulatório específico para mulheres.

A FDA já aprovou testosterona para mulheres?

Até o workshop de setembro de 2026, a FDA destacava que o uso permanecia off-label e que persistiam lacunas importantes de evidência, principalmente em relação à segurança de longo prazo. [3]

Portanto, uma audiência pública não equivale a aprovação.

Ela significa que o tema está sendo formalmente discutido.

O que a FDA quis discutir?

A oficina de 2026 incluiu questões como:

Isso é particularmente importante porque evidencia um problema frequente:

plausibilidade biológica não é suficiente para criar uma indicação.

A testosterona participa da fisiologia feminina.

Mas isso não significa que suplementá-la melhore automaticamente todas as funções relacionadas ao envelhecimento.

E a segurança?

Esse é um dos pontos mais importantes.

A FDA destacou explicitamente a ausência de dados robustos de segurança de longo prazo, especialmente quanto a:

Os estudos existentes em doses fisiológicas transdérmicas são relativamente tranquilizadores no curto prazo, mas isso não é equivalente a comprovação de segurança por décadas.

Por que produtos femininos poderiam melhorar a prática?

Uma formulação específica poderia oferecer:

Isso seria potencialmente superior a simplesmente adaptar um produto masculino.

Isso significaria liberar testosterona para qualquer mulher?

Não.

Esse é um ponto fundamental.

A existência de um produto feminino aprovado não mudaria automaticamente as indicações.

A lógica deveria continuar sendo:

diagnóstico adequado → indicação reconhecida → dose fisiológica → monitorização → avaliação de benefício e efeitos adversos.

O que não devemos fazer

A discussão regulatória não deve ser transformada em justificativa para utilizar testosterona rotineiramente para:

Essas indicações continuam sem sustentação suficiente.

O que isso muda na prática?

A principal consequência é separar duas discussões:

1. Existe uma indicação legítima para testosterona em algumas mulheres.

2. Ainda existe necessidade de melhorar a qualidade, dose e evidência das formulações disponíveis.

Isso é diferente de simplesmente defender mais uso.

Referências
1. International Menopause Society. IMS recommendations and key messages on women’s midlife health and menopause [Internet]. 2026 [cited 2026 Oct 7]. imsociety.org
2. Davis SR, Baber R, Panay N, Bitzer J, Perez SC, Islam RM, et al. Global consensus position statement on the use of testosterone therapy for women. J Clin Endocrinol Metab. 2019;104(10):4660-4666. DOI: 10.1210/jc.2019-01603
3. US Food and Drug Administration. FDA public meeting: testosterone use in menopausal women; September 17, 2026 [Internet]. 2026 [cited 2026 Oct 7]. fda.gov
4. Davis SR, Baber R, Panay N, Bitzer J, Perez SC, Islam RM, et al. Global consensus position statement on the use of testosterone therapy for women. J Clin Endocrinol Metab. 2019;104(10):4660-4666. DOI: 10.1210/jc.2019-01603
5. American College of Obstetricians and Gynecologists. Compounded bioidentical menopausal hormone therapy. Clinical Consensus No. 6. Obstet Gynecol. 2023;142(6):1266-1273. acog.org

Material educativo; não substitui consulta nem avaliação individual. A decisão sobre qualquer tratamento depende da sua história e deve ser tomada com o seu médico.

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