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Cardiologia · Prevenção · Evidências

Prevenção antes da UTI.

Um leito de terapia intensiva vazio representa a possibilidade de evitar a emergência. A medicina intensiva é indispensável, mas o melhor momento para cuidar da saúde é antes de precisar dela.

Dr. Hugo Faria · Cardiologia · Setembro 2026 · Leitura de 7 min

01 Prevenir é cuidar antes que a doença vire emergência

Um leito vazio de terapia intensiva carrega uma mensagem que vai além da ausência momentânea de um paciente. Ele representa a possibilidade de evitar sofrimento, perda de autonomia, internações prolongadas e complicações que mudam a vida de uma pessoa e de toda a família.

A medicina intensiva é indispensável. É nela que tratamos infartos extensos, acidentes vasculares cerebrais, insuficiência cardíaca descompensada, arritmias graves, choques e falências de órgãos. Quando o evento acontece, rapidez, tecnologia e trabalho em equipe fazem diferença. Mas o cuidado ideal começa muito antes da emergência.

02 Os números que sustentam a mensagem

As doenças cardiovasculares seguem como a principal causa de morte no mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde, foram responsáveis por cerca de 19,8 milhões de mortes em 2022, e 85% delas decorreram de infarto ou AVC. A própria OMS destaca que a maioria das doenças cardiovasculares pode ser prevenida pelo controle de fatores comportamentais, metabólicos e ambientais.

FonteAchadoLeitura correta
OMS 2025Cerca de 19,8 milhões de mortes cardiovasculares em 2022; 85% por infarto e AVC.A carga é enorme e há ampla margem preventiva, mas não que cada evento seja evitável.
INTERHEART 2004Nove fatores modificáveis responderam por cerca de 90% do risco atribuível de infarto nos homens e 94% nas mulheres.Risco atribuível populacional não é a chance de um indivíduo evitar um infarto.
BMJ 2020Aos 50 anos, quatro ou cinco hábitos de baixo risco somaram 7,6 anos (homens) e 10,7 (mulheres) livres de doença.Associação em coortes; não é garantia individual.

Um dos estudos mais importantes dessa área, o INTERHEART, avaliou mais de 29 mil pessoas em 52 países. Nove fatores potencialmente modificáveis responderam por cerca de 90% do risco atribuível populacional de infarto nos homens e 94% nas mulheres. Entre eles estavam alterações dos lipídios, tabagismo, hipertensão, diabetes, obesidade abdominal, fatores psicossociais, alimentação e atividade física.

03 Como interpretar o número de 90%

Esse número precisa ser lido com cuidado. Ele não significa que 90% dos infartos de cada pessoa possam ser evitados, nem que quem adota hábitos saudáveis esteja imune. Trata-se de uma estimativa populacional obtida em um estudo observacional do tipo caso e controle.

Ainda assim, o resultado mostra quanto do risco cardiovascular se concentra em fatores que podemos identificar, acompanhar e modificar. Outra análise, publicada no BMJ, acompanhou mais de 111 mil participantes: aos 50 anos, pessoas com quatro ou cinco hábitos de baixo risco tiveram mais anos de vida livres de diabetes, doença cardiovascular e câncer, cerca de 7,6 anos adicionais entre os homens e 10,7 entre as mulheres, em comparação com quem não tinha nenhum desses hábitos. Também aqui falamos de associação populacional, não de garantia individual.

04 O que significa prevenir na prática

Prevenção não se resume a fazer exames indiscriminadamente. Ela começa pela avaliação clínica e pela compreensão do risco individual: histórico familiar, pressão arterial, colesterol e outras frações lipídicas quando indicadas, glicemia, composição corporal, tabagismo, atividade física, alimentação, sono, saúde mental, sintomas e doenças já existentes.

A partir dessa avaliação, o plano pode incluir mudanças sustentáveis no estilo de vida, tratamento adequado da hipertensão, diabetes e dislipidemia, controle do peso e da adiposidade visceral, cessação do tabagismo, vacinação e seguimento proporcional ao risco. Exames complementares devem responder a uma pergunta clínica, e não substituir uma boa avaliação.

05 Reduzir risco não é prometer risco zero

Genética, idade, ambiente, condições sociais e doenças que não podem ser previstas também influenciam os desfechos. Por isso, uma comunicação responsável não culpa quem adoece. Prevenir é aumentar as probabilidades a favor da saúde, detectar problemas antes que avancem e diminuir a chance de que a primeira manifestação seja um evento grave.

O melhor momento é antes

A UTI existe para cuidar com excelência quando a gravidade chega. A prevenção existe para que, sempre que possível, ela não precise chegar. O melhor momento para começar não é quando o corpo entra em colapso. É antes.

Veja também a nossa prevenção cardiovascular integrada, que detalha como organizar essa avaliação de risco.

Prevenir é reduzir a chance de que a primeira manifestação de uma doença seja uma emergência.
Referências
World Health Organization. Cardiovascular diseases (CVDs). Fact sheet, atualizado em 31 jul 2025. who.int
Yusuf S, Hawken S, Ounpuu S, et al. Effect of potentially modifiable risk factors associated with myocardial infarction in 52 countries (the INTERHEART study): case-control study. Lancet. 2004;364(9438):937-952. DOI: 10.1016/S0140-6736(04)17018-9 (PMID 15364185)
Li Y, Schoufour J, Wang DD, et al. Healthy lifestyle and life expectancy free of cancer, cardiovascular disease, and type 2 diabetes: prospective cohort study. BMJ. 2020;368:l6669. DOI: 10.1136/bmj.l6669 (PMID 31915124)
Lloyd-Jones DM, et al. Life's Essential 8: Updating and Enhancing the AHA's Construct of Cardiovascular Health. Circulation. 2022;146:e18-e43.

Material educativo; não substitui consulta nem avaliação individual. O tratamento é individual e definido pelo médico. Não use medicamentos sem orientação.

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O melhor momento para cuidar é antes

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