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Menopausa, coração e ossos

A terapia hormonal pode fazer parte do cuidado na menopausa. Para os ossos, o benefício é demonstrado. Para o coração, depende do momento e do risco, e um exame, sozinho, não decide.

Dr. Hugo Faria · Cardiologia · Setembro 2026 · Leitura de 8 min

01 Climatério e menopausa: qual é a diferença?

Climatério é a transição entre a fase reprodutiva e a não reprodutiva. A menopausa corresponde à última menstruação e, quando ocorre naturalmente, é confirmada depois de 12 meses sem menstruar, sem outra causa que explique essa ausência. Os sintomas podem começar antes desse marco, ainda com ciclos menstruais.

A intensidade varia. Algumas mulheres passam por essa fase com poucos incômodos; outras têm fogachos, suor noturno, alterações do sono e desconforto vaginal que comprometem a qualidade de vida. A avaliação deve acolher essas queixas e investigar outras causas quando necessário.

02 Por que a saúde do coração merece atenção nessa fase

Durante a transição menopausal, podem ocorrer mudanças no colesterol, na distribuição da gordura corporal e na saúde dos vasos. Essas alterações se somam ao envelhecimento, aos hábitos de vida e a condições como hipertensão e diabetes. A menopausa não determina que uma mulher terá uma doença cardíaca, mas é um momento relevante para revisar a prevenção.

A história reprodutiva também importa: menopausa antes do esperado, pré-eclâmpsia e diabetes gestacional ajudam a compor a avaliação. Medir pressão, conhecer colesterol e glicemia e conversar sobre tabagismo, sono e atividade física transforma essa fase em uma oportunidade de cuidado.

03 O que a terapia hormonal pode oferecer

A terapia hormonal é o tratamento mais eficaz para fogachos e suor noturno. Também pode ajudar em manifestações geniturinárias e, quando usada de forma sistêmica, prevenir perda óssea e reduzir fraturas. A escolha depende dos sintomas, da presença de útero, dos antecedentes e das preferências da mulher.

A janela de oportunidade

Em geral, a relação entre benefícios e riscos é mais favorável ao iniciar em mulheres saudáveis com menos de 60 anos ou nos primeiros 10 anos após a menopausa, sem contraindicações. É uma orientação da decisão, não uma obrigação de começar. Continuar uma terapia bem indicada também é diferente de iniciá-la tardiamente.

04 A reposição hormonal protege o coração?

O momento do início pode influenciar os efeitos cardiovasculares. Existem sinais de benefício quando a terapia é iniciada perto da menopausa em mulheres selecionadas, mas isso não permite prometer prevenção de infarto ou AVC a toda mulher que usa hormônios.

A diretriz brasileira de 2024 não recomenda iniciar terapia hormonal com a finalidade de prevenção cardiovascular primária. A diretriz europeia de endocrinologia de 2025 também orienta não utilizá-la principalmente para prevenção cardiovascular, seja antes ou depois de uma doença já estabelecida.

Há uma diferença de ênfase nas recomendações internacionais. O documento completo da International Menopause Society, de 2026, é mais favorável ao possível benefício coronariano em mulheres saudáveis que iniciam cedo. Ainda assim, classifica o uso exclusivamente para prevenir doença coronariana como off-label, isto é, fora da indicação aprovada. Essa divergência precisa ser reconhecida, sem transformar uma possibilidade de benefício em promessa individual.

05 O que acrescenta o estudo publicado em setembro de 2026

Um estudo do JAMA Internal Medicine analisou 2.737 mulheres com fogachos ou suor noturno e sem doença cardiovascular prévia. Com dados observacionais do estudo SWAN, os pesquisadores emularam ensaios clínicos: organizaram as comparações para se aproximar da pergunta de um estudo randomizado, mas sem sortear o tratamento.

Iniciar terapia hormonal foi associado a menor ocorrência de eventos cardiovasculares: razão de risco ajustada de 0,78, com intervalo de confiança de 95% de 0,62 a 0,98. A associação foi mais favorável quando o início ocorreu até dez anos após a menopausa.

Como ler esse número

É um resultado relevante, porém sujeito a fatores de confusão residuais e à limitação dos eventos não fatais autorreferidos. O 0,78 não representa 22 pontos percentuais a menos de risco nem permite calcular um benefício individual. Os próprios autores afirmam que o trabalho não deve fundamentar o uso de terapia hormonal para prevenção cardiovascular.

06 E para os ossos, o benefício está demonstrado?

Sim. A queda do estrogênio favorece a perda de massa óssea, e ensaios clínicos demonstraram que a terapia hormonal sistêmica pode preservar a densidade mineral e reduzir fraturas durante o uso. A proteção óssea é um benefício reconhecido, que deve entrar na avaliação junto com os demais efeitos do tratamento.

Isso não significa que hormônios sejam a melhor opção para toda mulher com osteoporose. Fraturas anteriores, densitometria e estimativa do risco de novas fraturas ajudam a escolher o tratamento. Em mulheres com alto ou muito alto risco, medicamentos específicos para osteoporose podem ser mais apropriados.

Exercícios de força e com sustentação do peso corporal, alimentação com cálcio adequado, correção de deficiência de vitamina D quando indicada e prevenção de quedas complementam o cuidado. Ao suspender a terapia hormonal, a estratégia de proteção óssea precisa ser reavaliada.

07 Via de uso, histórico clínico e acompanhamento fazem diferença

Comprimidos, gel, adesivos e tratamentos vaginais não são equivalentes. O estrogênio transdérmico pode ser preferível em alguns perfis por apresentar menor risco de trombose do que o oral; isso não elimina a necessidade de avaliar contraindicações. Nas mulheres com útero, a terapia estrogênica sistêmica geralmente precisa de um progestagênio para proteger o endométrio.

O estrogênio vaginal em baixa dose é usado principalmente para sintomas locais e não deve ser apresentado como tratamento para proteger coração ou ossos. História de câncer de mama, infarto, AVC, trombose, doença hepática e sangramento vaginal sem explicação exige avaliação específica e pode contraindicar a terapia sistêmica. A decisão não se resume a um exame hormonal isolado.

Uma situação à parte

Quando a função ovariana diminui antes dos 40 anos, ou a menopausa ocorre antes dos 45, a abordagem é diferente. Na insuficiência ovariana prematura, a terapia costuma ser recomendada, se não houver contraindicações, até a idade habitual da menopausa, mesmo sem sintomas. Esse cenário precisa de avaliação própria.

08 Como transformar essa informação em cuidado

Uma consulta pode organizar três perguntas: quais sintomas precisam de tratamento, qual é o risco cardiovascular e como está a saúde óssea? A resposta orienta se a terapia hormonal faz sentido e quais outras medidas são necessárias.

Tratar pressão alta, colesterol elevado e diabetes quando indicado, evitar tabaco, movimentar-se, cuidar da alimentação e do sono continuam essenciais. Para quem não pode ou não deseja usar hormônios, há alternativas para os sintomas e para a proteção óssea.

A decisão sobre terapia hormonal deve combinar benefício esperado, riscos, preferência pessoal e acompanhamento. É possível cuidar dos sintomas da menopausa e planejar a saúde de longo prazo com informação e sem promessas universais.

É possível cuidar dos sintomas da menopausa e planejar a saúde de longo prazo, sem promessas universais.
Referências
Oliveira GMM, et al. Diretriz Brasileira sobre a Saúde Cardiovascular no Climatério e na Menopausa, 2024. Arq Bras Cardiol. 2024;121(7):e20240478. febrasgo.org.br
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International Menopause Society. Recommendations and Key Messages on Women’s Midlife Health and Menopause, 2026. imsociety.org
The North American Menopause Society. The 2022 hormone therapy position statement. Menopause. 2022;29(7):767-794. PubMed
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Cauley JA, et al. Estrogen plus progestin and risk of fracture and BMD (WHI). JAMA. 2003;290(13):1729-1738. PubMed
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The Menopause Society. Statement on Misinformation Surrounding Hormone Therapy, 2024. menopause.org

Material educativo; não substitui consulta nem avaliação individual. O tratamento é individual e definido pelo médico. Não use medicamentos sem orientação.

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