Colesterol controlado. E a inflamação?
Reduzir o LDL é essencial, mas atingir a meta não zera o risco cardiovascular. A inflamação ajuda a explicar por que parte do risco permanece, e por que um exame, sozinho, não conta toda a história.
01 Colesterol na meta não zera o risco
Reduzir o colesterol LDL é uma das medidas mais importantes para prevenir infartos e outras complicações da aterosclerose. Entretanto, alcançar a meta de colesterol não significa eliminar todas as possibilidades de um evento cardiovascular. A prevenção precisa considerar também pressão arterial, diabetes, tabagismo e outros fatores que influenciam a saúde das artérias.
Como apresentado no vídeo, a inflamação faz parte dessa avaliação. Entender seu papel ajuda a compreender por que algumas pessoas continuam apresentando risco mesmo quando o tratamento do colesterol está adequado.
02 Como a aterosclerose se forma
A aterosclerose envolve o acúmulo de colesterol e a participação de células do sistema imunológico na parede das artérias. Ao longo do tempo, essa interação contribui para a formação e a progressão das placas. Algumas podem sofrer ruptura e favorecer a formação de um coágulo, interrompendo o fluxo de sangue e provocando um infarto ou determinadas formas de AVC.
03 Risco residual e risco inflamatório residual
A parcela do risco que permanece apesar do tratamento é chamada de risco residual. Ela pode ter várias origens. Quando existe um componente inflamatório persistente associado a esse risco, usamos a expressão risco inflamatório residual. Esse conceito ganhou relevância com estudos realizados em pacientes que já recebiam estatinas.
04 A proteína C-reativa ultrassensível (PCR-us)
Um exame que pode ajudar nessa investigação é a proteína C-reativa ultrassensível, também chamada de PCR-us. Ela é um marcador de inflamação sistêmica: sua dosagem pode acrescentar informações à avaliação cardiovascular, mas não revela, isoladamente, a origem da inflamação nem confirma a presença de uma artéria obstruída.
Na interpretação tradicional, os resultados se associam às seguintes faixas de risco cardiovascular relativo:
| PCR ultrassensível | Associação com o risco cardiovascular |
|---|---|
| Abaixo de 1 mg/L | Menor risco relativo |
| De 1 a 3 mg/L | Risco relativo médio |
| Acima de 3 mg/L | Maior risco relativo |
Essas faixas não classificam sozinhas o risco total de uma pessoa. Um paciente que já teve infarto continua precisando de prevenção intensiva mesmo com PCR baixa. Além disso, infecções e outras condições inflamatórias podem elevar o resultado. Valores acima de 10 mg/L justificam investigar essas possibilidades e, conforme a avaliação clínica, repetir o exame após cerca de duas a três semanas.
A Diretriz Brasileira de Dislipidemias de 2025 considera a PCR-us igual ou superior a 2 mg/L um agravante de risco. Esse ponto de corte serve para complementar a avaliação e ajudar nas decisões preventivas. Ele não representa, por si só, um diagnóstico ou uma indicação automática de medicamento.
05 O que mostrou a análise no Lancet (2023)
Uma das pesquisas que ampliaram o interesse pelo tema foi publicada no Lancet em 2023. A análise reuniu 31.245 pacientes com doença aterosclerótica ou alto risco cardiovascular, já em tratamento com estatinas, participantes dos estudos PROMINENT, REDUCE-IT e STRENGTH.
Nessa população, a PCR-us apresentou uma associação mais forte com eventos e morte cardiovascular do que o LDL medido durante o tratamento. Ao comparar os 25% dos participantes com maior PCR aos 25% com menor PCR, os pesquisadores encontraram uma razão de riscos de aproximadamente 2,7 para morte cardiovascular. Esse número descreve uma comparação entre grupos; não permite calcular diretamente a probabilidade individual de morrer.
O resultado também não demonstra que o colesterol perdeu importância. Ele mostra que, entre pacientes que já estavam recebendo tratamento para reduzi-lo, a inflamação acrescentava informação sobre o risco que permanecia.
06 O cuidado começa pelo básico bem feito
Na prática, o cuidado começa pela revisão do conjunto de fatores de risco e pela continuidade das medidas com benefício comprovado:
- Manter o tratamento prescrito e verificar se o LDL está na meta adequada ao risco individual.
- Controlar a pressão arterial e o diabetes, quando presentes.
- Interromper o tabagismo.
- Praticar atividade física regularmente, conforme as condições clínicas.
- Adotar uma alimentação favorável à saúde cardiovascular e cuidar do excesso de peso.
Essas medidas continuam necessárias mesmo quando se considera uma investigação adicional do risco inflamatório.
07 Tratar a inflamação: o que a ciência já testou
Existem também pesquisas sobre tratamentos que atuam diretamente em mecanismos inflamatórios. O estudo CANTOS demonstrou que uma terapia específica, o canaquinumabe, conseguiu reduzir eventos cardiovasculares recorrentes sem reduzir o colesterol. Foi uma evidência importante sobre a possibilidade de tratar essa via, embora o aumento de infecções fatais observado no estudo destaque a necessidade de avaliar cuidadosamente os riscos de cada intervenção.
Outro exemplo é a colchicina em baixa dose. No estudo LoDoCo2, realizado em pacientes com doença coronariana crônica, ela reduziu o conjunto de eventos cardiovasculares avaliados quando acrescentada ao tratamento habitual. Isso sustenta sua consideração em pacientes selecionados.
Entretanto, os resultados não são iguais em todos os contextos. No CLEAR SYNERGY, a colchicina iniciada logo após um infarto não reduziu significativamente o desfecho cardiovascular principal, apesar da redução da PCR.
Segundo os resultados preliminares do estudo ZEUS, divulgados pelo patrocinador, o ziltivequimabe reduziu marcadores inflamatórios, mas não demonstrou redução significativa de morte cardiovascular, infarto ou AVC na população estudada, composta por pessoas com aterosclerose, doença renal crônica e inflamação. Esses dados foram apresentados em comunicado do fabricante, uma fonte diferente de uma publicação científica completa revisada por pares.
08 Marcador não é o mesmo que tratamento
Esses resultados ajudam a distinguir duas coisas: identificar um marcador associado ao risco e demonstrar que determinado tratamento previne eventos. Reduzir a PCR no exame, por si só, não garante proteção cardiovascular.
Por isso, medicamentos voltados ao risco inflamatório exigem indicação individualizada. A avaliação considera a doença cardiovascular existente, o benefício esperado, a função dos rins e do fígado e as possíveis interações com outros medicamentos. Uma PCR elevada, isoladamente, não justifica começar um anti-inflamatório.
Na próxima avaliação cardiovascular, vale revisar se o LDL está na meta apropriada, quais fatores de risco ainda precisam de atenção e se a dosagem de PCR-us pode acrescentar alguma informação útil. O objetivo é usar os exames para orientar decisões que melhorem a saúde e reduzam a possibilidade de um evento cardiovascular.
Material educativo; não substitui consulta nem avaliação individual. O tratamento é individual e definido pelo médico. Não use medicamentos sem orientação.
Seu risco, além do colesterol
Colesterol na meta é o começo, não o fim. Pressão, diabetes, hábitos e, quando faz sentido, a inflamação compõem a avaliação. Vamos analisar o seu caso com calma.
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