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Cardiologia · Metabolismo · Estudo

Tratar a obesidade protege o coração?

O SELECT demonstrou que a semaglutida reduziu eventos cardiovasculares em pessoas com obesidade e doença cardiovascular, mesmo sem diabetes. Um marco, com nuances sobre inflamação, tolerabilidade e indicação.

Dr. Hugo Faria · Cardiologia · Setembro 2026 · Leitura de 7 min

01 Emagrecer com um objetivo além da balança

O tratamento do excesso de peso pode ter um objetivo que vai além da balança: reduzir eventos cardiovasculares. O SELECT demonstrou esse benefício com semaglutida 2,4 mg semanal em pessoas com sobrepeso ou obesidade, doença cardiovascular já estabelecida e sem diabetes.

Essa definição da população importa. O estudo não afirma que qualquer pessoa que deseje emagrecer obterá a mesma proteção. Ele avaliou pacientes com risco elevado, que já precisavam de prevenção de novos eventos.

02 O que foi demonstrado

Mais de 17 mil participantes receberam semaglutida ou placebo, além dos cuidados habituais. Durante aproximadamente 40 meses de seguimento médio, o conjunto de morte cardiovascular, infarto não fatal e AVC não fatal ocorreu em 6,5% no grupo tratado e em 8,0% no grupo placebo (razão de risco 0,80).

A redução relativa foi de 20%. Em números absolutos, a diferença foi de aproximadamente 15 eventos a menos por mil participantes durante o período observado. Os dois números descrevem o benefício de maneiras diferentes: o relativo mostra a proporção da redução; o absoluto ajuda a dimensionar o seu impacto.

03 Qual pode ser o papel da inflamação

Uma análise publicada em 2026 mostrou redução da PCR ultrassensível, um marcador de inflamação, com a semaglutida. Parte dessa mudança apareceu antes de uma perda de peso expressiva. Ao incluir a mudança da PCR na análise, o benefício foi parcialmente atenuado, um padrão compatível com uma contribuição parcial da inflamação.

Modelagem não é prova de causa

A estimativa de contribuição da inflamação vem de modelagem. A randomização ocorreu para o medicamento; a mudança posterior da PCR não foi randomizada. Peso, metabolismo e outras alterações também participam. Reduzir a PCR não é, por si só, a indicação do medicamento.

04 O tratamento precisa ser individualizado

Benefício cardiovascular não elimina efeitos adversos. No SELECT, mais participantes interromperam definitivamente o tratamento por eventos adversos no grupo semaglutida (16,6% contra 8,2%). Isso reforça a importância de avaliar tolerabilidade e de acompanhar o tratamento.

Também não se trata de abandonar os demais pilares da prevenção. O medicamento foi estudado junto ao cuidado habitual. Controle do colesterol e da pressão, atividade física, alimentação e cessação do tabagismo continuam compondo o raciocínio preventivo. Houve ainda sinais favoráveis no peso (queda de cerca de 10%) e em um desfecho renal composto, como achados secundários.

05 O que muda na conversa sobre obesidade

O SELECT mostra que tratar a obesidade pode integrar o cuidado cardiovascular. A indicação deve considerar o risco individual, o benefício esperado e a possibilidade de manter o tratamento com segurança. O estudo não justifica usar semaglutida apenas para normalizar uma PCR, nem garante o mesmo resultado para qualquer pessoa ou medicamento da classe.

Uma avaliação cardiometabólica reúne essas informações para orientar a prevenção, de forma proporcional ao contexto de cada paciente.

Tratar a saúde metabólica também pode proteger o coração, com indicação individualizada.
Referências
Lincoff AM, et al. Semaglutide and Cardiovascular Outcomes in Obesity without Diabetes (SELECT). N Engl J Med. 2023;389:2221-2232. nejm.org
Ridker PM, et al. Effect of Semaglutide on High-Sensitivity CRP in SELECT (análise secundária pré-especificada). Circulation. 2026. PubMed
Ryan DH, et al. Long-term weight loss effects of semaglutide in obesity without diabetes in SELECT. Nat Med. 2024. PubMed
Colhoun HM, et al. Long-term kidney outcomes of semaglutide in obesity and cardiovascular disease in SELECT. Nat Med. 2024. PubMed

Material educativo; não substitui consulta nem avaliação individual. O tratamento é individual e definido pelo médico. Não use medicamentos sem orientação.

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