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Coração · Colesterol · Aterosclerose

A placa nas artérias pode diminuir?

Por muito tempo, o objetivo do tratamento do colesterol foi impedir que as placas crescessem. Um estudo publicado em outubro de 2026 no JAMA Cardiology mostra, com imagem de todas as coronárias, que baixar bem o LDL também pode fazer parte da placa regredir. Entenda o que isso significa, e o que não significa.

Dr. Hugo Faria · Cardiologia · Outubro 2026 · Leitura de 6 min

01 O que é a placa de aterosclerose

A aterosclerose é o acúmulo de colesterol, células inflamatórias, tecido fibroso e cálcio na parede das artérias. O principal combustível desse processo são as partículas que carregam colesterol, medidas pelo LDL e pela ApoB. A doença começa muitos anos antes dos sintomas e, nas coronárias, pode levar a angina e infarto. Falei mais sobre isso em Aterosclerose silenciosa e em ApoB.

O risco não depende só do quanto a artéria está estreitada. A quantidade total de placa e a sua composição também contam: a placa não calcificada, mais rica em gordura, é a que mais se associa a eventos.

02 O que o estudo fez

O FLOWPROMOTE acompanhou 104 pessoas com doença coronariana estável recém-diagnosticada, todas com pelo menos um estreitamento acima de 50% e que nunca tinham usado estatina. Metade recebeu atorvastatina 40 mg; a outra metade, rosuvastatina 40 mg com ezetimiba 10 mg, uma combinação mais potente. As placas de todas as coronárias foram medidas por angiotomografia no início, aos 9 e aos 18 meses. [1]

Um detalhe de método

O objetivo principal do estudo era a fisiologia do fluxo coronariano (FFR pela tomografia). A regressão das placas é uma análise secundária, mas foi planejada desde o início, o que lhe dá mais peso. [2]

03 O que aconteceu com o LDL e com as placas

−21% · −28%
redução da placa total e da placa não calcificada com o tratamento mais intensivo, em 18 meses
Resultado em 18 mesesAtorvastatinaRosuvastatina + ezetimiba
LDL final69,5 mg/dL42,5 mg/dL
Queda do LDL38%65%
Redução da placa total13,6%21,1%
Redução da placa não calcificada20,0%28,2%
Pacientes com regressão da placa total75%90%
Pacientes com regressão da placa não calcificada77%98%

As placas diminuíram nos dois grupos, e a diferença a favor do tratamento mais intensivo foi estatisticamente significativa. Os pesquisadores também viram uma relação direta: quanto mais baixo o LDL alcançado, maior a regressão. [1]

04 E o cálcio da placa?

O volume de placa calcificada aumentou de forma parecida nos dois grupos. Isso já foi visto em outros estudos com estatina: enquanto a parte gordurosa diminui, a placa pode calcificar. Não é sinal de que o tratamento falhou.

Por isso, o escore de cálcio não precisa cair para o tratamento estar funcionando, e às vezes até sobe. Expliquei o exame em Escore de cálcio coronário. Ainda assim, mais cálcio não garante, sozinho, que cada placa ficou estável.

05 O que o estudo não mostra

O achado se soma a estudos anteriores com ultrassom dentro da artéria, como ASTEROID e GLAGOV, que também viram regressão com LDL muito baixo. A novidade é medir o volume de placa em toda a árvore coronariana, sem cateter. [3,4]

06 O que muda na prática

Para quem tem placa nas coronárias, o recado é encorajador: a doença não é uma via de mão única. Baixar o LDL de forma intensa e contínua reduz infarto e AVC e pode fazer parte da placa regredir. As diretrizes de 2025 e 2026 seguem a mesma linha, com metas de LDL mais baixas para quem tem risco mais alto. Falei sobre metas em Qual é o LDL ideal? e sobre segurança em LDL baixo demais faz mal?.

Não é preciso repetir a angiotomografia só para "ver a placa diminuir". O acompanhamento continua sendo LDL e ApoB controlados, uso regular do remédio, pressão, glicose, atividade física e sem cigarro.

Prevenir não é só impedir que a placa cresça. Às vezes, é fazer ela diminuir.
Referências
1. Mortensen MB, Iraqi N, Sand NPR, et al. Intensive vs more intensive lipid-lowering therapy and plaque regression in statin-naive patients: prespecified analyses from the FLOWPROMOTE randomized clinical trial. JAMA Cardiol. Publicado online em 30 out 2026. DOI: 10.1001/jamacardio.2026.4788
2. Mortensen MB, Sand NP, Busk M, et al. Influence of intensive lipid-lowering on CT derived fractional flow reserve in patients with stable chest pain: rationale and design of the FLOWPROMOTE study. Clin Cardiol. 2022;45:986-994. DOI: 10.1002/clc.23895
3. Nissen SE, Nicholls SJ, Sipahi I, et al. Effect of very high-intensity statin therapy on regression of coronary atherosclerosis: the ASTEROID trial. JAMA. 2006;295:1556-1565. DOI: 10.1001/jama.295.13.jpc60002
4. Nicholls SJ, Puri R, Anderson T, et al. Effect of evolocumab on progression of coronary disease in statin-treated patients: the GLAGOV randomized clinical trial. JAMA. 2016;316:2373-2384. DOI: 10.1001/jama.2016.16951

Material educativo; não substitui consulta nem avaliação individual. O tratamento é individual e definido pelo médico. Não use medicamentos sem orientação.

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