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Cardiologia · Transplante · Na mídia

Doação de órgãos: a conversa que começa em casa.

No Dia Nacional da Doação de Órgãos, 27 de setembro, participei de uma reportagem do g1 DF sobre transplante de coração. O que eu mais quis deixar claro é simples: a decisão final é da família, e ela fica mais leve quando a conversa acontece antes.

Dr. Hugo Faria · Cardiologia · Setembro 2026 · Leitura de 7 min

01 Os números por trás da fila

Segundo dados da Secretaria de Saúde do DF citados pelo g1, 1.902 pessoas aguardavam um órgão ou uma córnea no Distrito Federal em 31 de agosto de 2026. A maior parte espera por rim ou córnea, mas a fila também inclui fígado e coração.

Fila no DF · 31/08/2026Pessoas
Rim991
Córnea830
Fígado43
Coração38

A mesma reportagem registra 319 transplantes realizados na rede pública do DF em 2026, com dados do painel InfoSaúde. No país, 2025 foi o ano com mais transplantes já registrados: cerca de 31 mil, sendo 427 de coração, e 86% deles financiados pelo SUS, segundo o Ministério da Saúde.

45%
das famílias entrevistadas recusaram a doação em 2025 · ABTO

O principal obstáculo continua sendo a recusa familiar. Em 2025, foram identificados 15.940 potenciais doadores e houve 4.335 doadores efetivos; cerca de 4.200 famílias disseram não quando foram consultadas. Por trás de cada número há uma família em luto tomando uma decisão difícil, muitas vezes sem saber o que a pessoa que partiu gostaria.

02 Quem decide sobre a doação

No Brasil, a doação de órgãos após a morte depende da autorização da família. A Lei nº 9.434/1997 determina que essa autorização seja dada pelo cônjuge ou por um parente maior de idade, até o segundo grau. Documentos e registros ajudam a mostrar a sua vontade, mas não substituem essa autorização.

Na prática

Quem deseja ser doador precisa, antes de tudo, contar isso para a família. É essa conversa que permite que o seu desejo seja respeitado.

03 Morte encefálica: quando o coração ainda bate

A doação de órgãos como o coração acontece, em geral, após a confirmação de morte encefálica. Ela é definida por um protocolo rigoroso, previsto na Resolução CFM nº 2.173/2017, que inclui dois exames clínicos feitos por médicos diferentes e capacitados, um teste de apneia e um exame complementar.

Quando a morte encefálica é confirmada, a pessoa morreu, mesmo que os aparelhos mantenham o coração batendo.

Ver o coração ainda batendo pode tornar muito difícil compreender que a morte já aconteceu. Por isso, como disse na reportagem, cada dúvida da família precisa ser esclarecida com paciência e sensibilidade. A decisão precisa ser tomada com informação, liberdade e sem pressão.

04 Quando o transplante de coração é indicado

O transplante de coração é considerado na insuficiência cardíaca avançada: quando, mesmo com o melhor tratamento indicado e tolerado, incluindo medicamentos e, quando cabem, dispositivos ou cirurgias, a pessoa continua com limitações importantes e alto risco de morrer.

A idade pesa, mas não decide sozinha: a diretriz internacional de 2024 da ISHLT admite avaliar pessoas acima de 70 anos em casos cuidadosamente selecionados. E a avaliação deve começar antes de uma deterioração extrema, que pode comprometer outros órgãos e até inviabilizar a cirurgia.

05 Como funciona a fila

Depois da indicação, a equipe habilitada inscreve o paciente no Sistema Nacional de Transplantes. A fila não funciona apenas por ordem de chegada. Quem recebe cada coração é definido por critérios técnicos: urgência clínica, compatibilidade sanguínea, tamanho adequado do órgão e tempo de espera. O órgão também precisa estar em boas condições e chegar ao receptor em um tempo seguro.

A espera varia muito. Pode levar meses e, em alguns casos, passar de um ano. A reportagem do g1 conta a história de um paciente que recebeu um novo coração em 2025, depois de cerca de um ano internado, e hoje voltou ao trabalho. Depois do transplante começa uma nova etapa: remédios contra rejeição por toda a vida, acompanhamento regular, atenção às infecções e reabilitação.

06 Como deixar sua vontade clara

O primeiro passo é conversar. Diga à sua família, com clareza, que você deseja ser doador. Deixar essa vontade clara é uma forma de cuidar de quem você ama, para que, num momento tão difícil, ninguém precise carregar também a dúvida sobre o que você gostaria.

O segundo passo, se quiser, é registrar. A AEDO (Autorização Eletrônica de Doação de Órgãos), criada pelo Provimento CNJ nº 164/2024, é gratuita e feita on-line pela plataforma e-Notariado, com uma videoconferência com um tabelião de cartório de notas. Mais de 32 mil brasileiros já fizeram esse registro, que pode ser consultado pelas equipes de transplante.

O registro não substitui a conversa

Mesmo com a AEDO, a família continua tendo a palavra final. O documento ajuda a mostrar sua vontade; a conversa é o que ajuda a família a respeitá-la.

Sobre este mesmo tema, veja também a minha participação na reportagem da Band no Setembro Verde.

Autorizar a doação, em meio à própria dor, é um gesto de generosidade muito profundo.
Referências
g1 DF. Dia Nacional da Doação de Órgãos: DF já fez 319 transplantes em 2026; quase 2 mil pessoas estão na fila. 27/09/2026. g1.globo.com
Ministério da Saúde / Agência Brasil. Brasil bate recorde de transplantes em 2025. 07/05/2026. agenciabrasil.ebc.com.br
Agência Brasil. Taxa média de recusa de doação de órgãos pelos familiares é 45%. Setembro 2026, com dados da ABTO (Registro Brasileiro de Transplantes 2025). agenciabrasil.ebc.com.br
Brasil. Lei nº 9.434, de 4 de fevereiro de 1997, art. 4º, com redação da Lei nº 10.211/2001. planalto.gov.br
Resolução CFM nº 2.173/2017. Critérios do diagnóstico de morte encefálica.
Conselho Nacional de Justiça. Provimento nº 164, de 27 de março de 2024 (AEDO). atos.cnj.jus.br. Colégio Notarial do Brasil, dados de 2026.
Peled Y, et al. International Society for Heart and Lung Transplantation Guidelines for the Evaluation and Care of Cardiac Transplant Candidates, 2024. J Heart Lung Transplant. 2024;43(10):1529-1628.e54. DOI: 10.1016/j.healun.2024.05.010

Material educativo; não substitui consulta nem avaliação individual. Números de fontes oficiais e da imprensa, conforme as datas indicadas.

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