Creatina faz mal aos rins?
A creatina é um dos suplementos mais estudados que existem. Novas meta-análises de 2026 ajudam a responder à dúvida mais comum — e explicam por que alguns exames confundem: a creatinina pode subir sem que a função renal tenha piorado.
01 Uma dúvida que não sai de moda
A creatina é provavelmente um dos suplementos mais estudados da nutrição esportiva. Mesmo assim, uma preocupação continua aparecendo nos consultórios e nas redes: creatina pode prejudicar os rins? Uma nova revisão sistemática e meta-análise publicada em 2026 no Journal of Renal Nutrition ajuda a esclarecer — e mostra por que alguns exames podem causar confusão.
02 O que a primeira meta-análise encontrou
Os pesquisadores analisaram 19 ensaios clínicos randomizados e um estudo crossover randomizado que avaliaram a suplementação de creatina e diferentes marcadores da função renal. O primeiro resultado chama atenção: quem usou creatina teve um pequeno aumento da creatinina sérica, em média de aproximadamente 0,13 mg/dL. Mas isso não foi acompanhado por aumento significativo da ureia nem por redução significativa da taxa de filtração glomerular.
A creatinina é muito usada para estimar a função dos rins, mas não é um marcador perfeito — depende também do metabolismo muscular e da própria creatina.
03 Por que a creatinina sobe sem haver dano
Quando uma pessoa usa creatina, aumenta o pool corporal de creatina e fosfocreatina. Uma pequena parcela desse conteúdo é naturalmente convertida em creatinina. Consequentemente, a creatinina no sangue pode subir mesmo sem haver dano renal. Por isso, interpretar uma creatinina discretamente elevada em alguém que usa creatina exige cuidado — e é aqui que os exames baseados em creatinina podem enganar. A sequência pode ser: creatina ↑ → creatinina ↑ → eGFR calculada ↓, sem que a filtração verdadeira tenha piorado.
04 A segunda meta-análise tornou tudo mais claro
Poucos meses depois, uma segunda revisão sistemática e meta-análise analisou 26 estudos com 1.036 participantes (saudáveis e com doença renal). De novo, a suplementação aumentou discretamente a creatinina (+0,14 mg/dL). E quando a função renal foi estimada por equações baseadas na própria creatinina, apareceu uma aparente redução da TFG (cerca de −10,75 mL/min). Porém, quando a filtração foi medida por Cr-EDTA — um marcador exógeno, independente do metabolismo da creatina — essa redução não foi encontrada. Também não houve aumento significativo de albuminúria ou proteinúria.
O exame baseado em creatinina sugere piora da função renal, enquanto a função medida por um marcador independente permanece preservada.
05 Outros marcadores ajudam na dúvida
Por isso, em determinadas situações, outros marcadores são úteis. A cistatina C, por exemplo, não depende diretamente do metabolismo da creatina e pode ajudar a avaliar casos em que há dúvida sobre a interpretação da creatinina — e ensaios com cistatina C mostraram ausência de deterioração renal após suplementação. Exames urinários, especialmente a relação albumina/creatinina, também trazem informação importante sobre possível lesão renal. Uma meta-análise de 2025 já havia encontrado o mesmo padrão: pequeno aumento da creatinina, sem redução significativa da filtração — com os autores alertando que usar apenas creatinina para avaliar usuários de creatina pode ser enganoso.
06 O que muda na prática clínica
Isso tem aplicação imediata. Se um paciente começa a tomar creatina e depois aparece com uma pequena elevação isolada da creatinina, não se deve concluir automaticamente que houve nefrotoxicidade. É preciso colocar o resultado em contexto: em caso de dúvida, uma avaliação mais informativa pode incorporar cistatina C, relação albumina/creatinina urinária, urinálise e evolução temporal, além da creatinina; em situações selecionadas, a medida direta da TFG pode esclarecer discrepâncias. Isso não significa ignorar a creatinina — significa entender as limitações do biomarcador.
07 Sem extrapolar: o que ainda não sabemos
Também não se pode afirmar que “creatina nunca prejudica os rins” — essa extrapolação seria cientificamente errada. A principal limitação das evidências continua sendo a duração: há muito menos dados de ensaios controlados acompanhando a suplementação por vários anos, e os próprios autores destacam a necessidade de estudos com seguimento superior a um ano. Além disso, pessoas com doença renal estabelecida, função renal instável, proteinúria importante ou outras condições nefrológicas não devem ser tratadas como equivalentes a adultos saudáveis.
08 A conclusão adequada
Em pessoas sem doença renal relevante, as evidências disponíveis são bastante tranquilizadoras quanto à segurança renal da creatina em doses usuais. Ela pode provocar uma pequena elevação da creatinina sérica — mas creatinina mais alta não significa necessariamente que o rim está funcionando pior. Na medicina, interpretar um exame exige entender não apenas o número apresentado no laboratório, mas também a fisiologia por trás daquele número. É esse detalhe que torna o tema muito mais interessante do que simplesmente dizer “creatina é segura”.
Material educativo; não substitui consulta nem avaliação individual. O tratamento é individual e definido pelo médico. Não use medicamentos sem orientação.
Seu exame, no contexto certo
Uma creatinina levemente alterada em quem treina e usa creatina raramente conta a história toda. Avaliar os marcadores certos evita sustos — e condutas desnecessárias. Vamos analisar o seu caso.
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