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Nutrição · Metabolismo · Novo estudo

Café dá mais músculo e menos gordura?

Uma manchete atraente ganhou as redes: quem bebe café teria menos gordura e mais músculo. O estudo existe e é interessante. Mas há uma diferença enorme entre observar uma diferença e provar que o café a causou.

Dr. Hugo Faria · Cardiologia · Agosto 2026 · Leitura de 6 min

01 Uma manchete atraente, um estudo real

Uma reportagem chamou atenção com uma afirmação sedutora: quem bebe café teria menos gordura corporal e mais massa muscular. A manchete nasceu de um estudo científico real, publicado em julho de 2026 no European Journal of Nutrition. Os resultados são interessantes. Mas existe uma diferença fundamental entre dizer que pessoas que bebem mais café apresentaram uma composição corporal diferente e afirmar que o café fez essas pessoas perderem gordura ou ganharem músculo.

02 Mais de 2 mil adultos avaliados

Pesquisadores da Universidade de Oulu analisaram 2.264 participantes da Northern Finland Birth Cohort 1966, uma grande coorte populacional finlandesa. Os participantes tinham cerca de 46 anos e foram divididos conforme o consumo habitual de café. Compararam a bebida com percentual e massa de gordura, gordura visceral, massa muscular, glicose e insulina, aminoácidos circulantes, testosterona, testosterona livre e SHBG (a proteína que transporta os hormônios sexuais), ajustando para IMC, tabagismo, atividade física, álcool e escolaridade.

03 O resultado que virou manchete

Quem consumia mais café apresentava, em média, menor percentual de gordura, menor massa de gordura, menor gordura visceral e maior massa muscular esquelética. Um detalhe chamou atenção: apesar dessas diferenças, o IMC era semelhante entre os grupos.

Mesmo IMC, corpos diferentes

Pessoas com o mesmo índice de massa corporal podem ter composições completamente diferentes — uma com mais gordura visceral e menos músculo, outra com mais músculo e menos gordura. O IMC, isolado, não mostra essa diferença.

04 Então café ajuda a ganhar músculo?

Ainda não podemos afirmar isso, e o motivo principal é o desenho do estudo. Trata-se de uma análise transversal e observacional. Os pesquisadores não deram café a um grupo e placebo a outro para depois comparar; eles observaram uma população existente e viram que quem relatava mais café também tinha algumas características metabólicas diferentes. Isso identifica associações, não demonstra causalidade. Além disso, a composição corporal foi estimada por bioimpedância, útil, mas menos precisa que DXA ou exames de imagem.

05 Outro estudo aponta na mesma direção

Curiosamente, não é o único trabalho de 2026 a encontrar essa associação. Um estudo no Journal of Nutrition analisou 15.457 adultos coreanos (KNHANES), com composição avaliada por DXA, metodologia mais robusta, e também encontrou associação entre maior consumo de café e indicadores discretamente melhores de massa magra e muscular; nas mulheres, também com menor massa de gordura. Quando populações e métodos diferentes convergem, o sinal fica mais interessante — mas segue sendo observacional.

06 Café e metabolismo da glicose

O estudo finlandês trouxe outro achado: especialmente entre os homens, mais café associou-se a menor insulina de jejum, menor resposta de insulina no teste de tolerância à glicose, menor resistência e maior sensibilidade à insulina. Isso é coerente com uma literatura epidemiológica bem maior que, há anos, liga o consumo habitual de café a menor incidência de diabetes tipo 2. O café é biologicamente muito mais do que cafeína: tem centenas de bioativos, como polifenóis e ácidos clorogênicos.

07 Um achado curioso: os BCAAs

A análise metabolômica mostrou associação inversa entre café e alguns aminoácidos de cadeia ramificada (BCAAs): leucina, isoleucina e valina. Níveis persistentemente altos desses aminoácidos vêm sendo associados a obesidade visceral, resistência à insulina e maior risco metabólico. Isso não significa que BCAA faça mal ou que comer proteína cause diabetes: nesse contexto, os BCAAs circulantes funcionam mais como marcadores de alterações metabólicas. O achado sugere que o padrão metabólico dos maiores consumidores de café era diferente.

08 E a testosterona?

Talvez a parte mais curiosa. Nos homens, cada xícara adicional por dia associou-se a cerca de +0,29 nmol/L de testosterona total, além de maior testosterona biodisponível e maior SHBG, com menor índice de andrógenos livres e menor testosterona livre. É aqui que uma leitura superficial vira outra manchete errada: “café aumenta testosterona”. Os dados não permitem isso: a total subiu, mas a SHBG (que se liga ao hormônio) também, e a fração livre — a que age — caiu. Nas mulheres, o padrão foi diferente: mais SHBG e menores índices de testosterona livre, sem associação significativa com a total.

09 O café seria responsável por tudo isso?

Não sabemos. Apesar dos ajustes, estudos observacionais sempre carregam confundimento residual: quem bebe certa quantidade de café pode diferir em alimentação, atividade física, sono, tabagismo, rotina, álcool e genética. Há ainda a causalidade reversa: pessoas com sintomas ou doenças podem ter reduzido o café espontaneamente, fazendo parecer que o café “protege” quando, na verdade, uma condição prévia é que mudou o hábito.

10 Qual é a mensagem prática

O estudo é interessante e soma à literatura que relaciona café à saúde metabólica. Quem consumia mais café tinha menos gordura, menos gordura visceral, mais músculo e marcadores mais favoráveis. Mas continua sendo associação: ainda não podemos dizer que aumentar o café fará alguém perder gordura, ganhar músculo, elevar testosterona ou melhorar a insulina. Para composição corporal, os pilares seguem menos atraentes para uma manchete, e muito mais eficazes: treino de força, alimentação adequada, proteína suficiente, controle de peso, atividade física e sono. O café pode fazer parte dessa estratégia. Ele só não deve ser confundido com a estratégia.

O café pode fazer parte da estratégia. Ele só não deve ser confundido com a estratégia.
Referências
Verroest L, Jokelainen J, Choudhary S, et al. Associations of habitual coffee intake with testosterone and cardiometabolic markers: the Northern Finland Birth Cohort 1966 study. European Journal of Nutrition. 2026;65:215. DOI: 10.1007/s00394-026-04038-z.
Association of Coffee Consumption Frequency and Body Composition in Korean Adults (KNHANES 2008–2011). The Journal of Nutrition. 2026;156(5):101457. DOI: 10.1016/j.tjnut.2026.101457. (n=15.457; composição por DXA.)

Material educativo; não substitui consulta nem avaliação individual. O tratamento é individual e definido pelo médico. Não use medicamentos sem orientação.

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