O que mudou em um mês.
A série terminou, mas a ciência não parou. Genéricos de semaglutida no Brasil, a entrada na diretriz de insuficiência cardíaca, uma lição sobre peso e coração, comprimidos aprovados e uma confirmação no Alzheimer.
01 Por que um episódio extra
A Semana das Canetas terminou no início de setembro, com sete episódios sobre o que os agonistas do receptor de GLP-1 já são e o que ainda não podem prometer. A ciência, porém, não parou. Em poucas semanas surgiram novidades que mudam trechos da série, e a forma honesta de lidar com isso é atualizar.
Aqui estão as principais, com a mesma régua de sempre: separar o que está provado do que ainda é promessa.
| Novidade | Quando | O que significa |
|---|---|---|
| Genéricos de semaglutida no Brasil | 17 e 24 ago 2026 | Potencial de ampliar o acesso; preço pelo menos 35% menor por lei |
| Diretriz europeia de insuficiência cardíaca | 28 ago 2026 | Semaglutida ou tirzepatida na IC com fração de ejeção preservada e obesidade (classe IIa) |
| Tirzepatida aprovada para o coração no diabetes | 28 ago 2026 (FDA) | Não inferior à dulaglutida, sem superioridade |
| Retatrutida, fase 3 | maio 2026 | 28,3% de perda de peso; dados da empresa, sem aprovação |
| Orforglipron aprovado | abr 2026 (FDA) | Comprimido sem restrição de jejum ou água |
| EVOKE publicado | mar 2026 | Confirma: sem benefício no Alzheimer |
02 No Brasil: chegaram os genéricos de semaglutida
Em 17 de agosto de 2026, a Anvisa aprovou o primeiro genérico de semaglutida em caneta no país, e em 24 de agosto, o segundo. A agência sinalizou que novas canetas podem ser aprovadas até o fim do ano, e o governo acompanha esses registros com a expectativa de ampliar o acesso também no SUS.
Por lei, um genérico precisa custar pelo menos 35% menos que o medicamento de referência. O preço final ainda depende da definição oficial, e os produtos ainda não estavam à venda na data desta atualização. Para muita gente, o custo sempre foi a principal barreira: esse cenário pode começar a mudar.
Genérico aprovado passa pelas exigências de qualidade e equivalência da Anvisa. Canetas manipuladas, importadas sem registro ou vendidas sem receita são outra coisa, sem essa garantia. E baratear não muda a indicação: continua sendo tratamento de uma doença, com receita, acompanhamento e efeitos colaterais.
03 No coração: a entrada na diretriz de insuficiência cardíaca
Em 28 de agosto de 2026, a Sociedade Europeia de Cardiologia publicou sua nova diretriz de insuficiência cardíaca. Entre as mudanças, passou a recomendar que se considere a semaglutida ou a tirzepatida (classe IIa) para quem tem insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada e obesidade.
Na prática, é o reconhecimento formal do que os estudos STEP-HFpEF e SUMMIT mostraram: melhora de sintomas e da capacidade física e, com a tirzepatida, menos piora da insuficiência cardíaca. Classe IIa significa que o tratamento deve ser considerado, pesando o perfil de cada paciente.
04 Uma lição importante: emagrecer mais não garante proteger mais
No mesmo dia, a FDA aprovou a tirzepatida para reduzir eventos cardiovasculares em adultos com diabetes tipo 2 de alto risco. A base foi o estudo SURPASS-CVOT, com 13.299 pessoas, que a comparou com a dulaglutida, outra caneta com benefício cardiovascular já demonstrado.
O resultado é didático: infarto, AVC ou morte cardiovascular ocorreram em 12,2% com tirzepatida e em 13,1% com dulaglutida. A tirzepatida foi não inferior, mas não superior, mesmo emagrecendo mais e controlando melhor a glicose. Perder mais peso não se traduz automaticamente em mais proteção do coração, e cada benefício precisa ser testado no desfecho que importa.
05 O futuro que já chegou, e o que ainda é promessa
Os comprimidos já são realidade nos Estados Unidos. A semaglutida oral de 25 mg foi aprovada para obesidade em dezembro de 2025, com perda média de 13,6% do peso, contra 2,2% com placebo. Em abril de 2026, foi a vez do orforglipron, um comprimido de molécula pequena que dispensa jejum e restrição de água, com 11,2% contra 2,1% em 72 semanas.
A retatrutida, que age em três alvos, teve o primeiro resultado de fase 3 em maio de 2026: no estudo TRIUMPH-1, com 2.339 pessoas, a dose mais alta levou a 28,3% de perda de peso em 80 semanas. É um número expressivo, mas ainda divulgado pela empresa, à espera da publicação científica completa; efeitos digestivos foram frequentes e o remédio não está aprovado.
06 O que não funcionou continua sem funcionar
No episódio sobre o cérebro, contamos que os estudos EVOKE e EVOKE+ foram negativos no Alzheimer, com base nos resultados preliminares. Em março de 2026, a publicação completa na revista The Lancet confirmou: com 3.808 participantes, a progressão da doença em dois anos foi praticamente idêntica com semaglutida ou placebo.
Atualizar a série vale nos dois sentidos: incorporar o que avançou e reafirmar o que não se confirmou. A régua é a mesma de sempre: ciência, sem milagres e sem demonização. E a decisão de usar uma dessas medicações continua individual, considerando risco, doenças, objetivos, custo e acompanhamento.
Material educativo; não substitui consulta nem avaliação individual. O tratamento é individual e definido pelo médico. Não use medicamentos sem orientação.
Canetas: a decisão é individual
Mais acesso não muda a regra: indicação, dose e acompanhamento dependem do seu risco, das suas doenças e dos seus objetivos. Vamos conversar.
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