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Medicina intensiva · Humanização · Evidência

Visita pet na UTI: o que a ciência realmente mostra

Uma cachorrinha entrou na nossa UTI e foi visitar pacientes. A cena emociona — mas será que ajuda? A literatura mais recente já permite uma resposta, desde que bem delimitada.

Dr. Hugo Faria · Cardiologia intensiva · Humanização · Leitura de 8 min

Uma cachorrinha de crachá entrou na nossa UTI e foi de leito em leito. O sorriso dos pacientes e das famílias foi imediato. Mas, como médico, a pergunta que me faço é outra: isso tem efeito clínico — ou é só um momento bonito? A resposta curta é que a ciência já permite uma conclusão, desde que bem delimitada.

01 A conclusão possível hoje

A visita/terapia assistida por cães na UTI produz benefício psicológico imediato relevante para pacientes e familiares — sobretudo reduzindo ansiedade, medo e sofrimento percebido, e, em alguns estudos, dor. O que ainda não podemos afirmar é que ela reduza mortalidade, tempo de internação, ventilação mecânica ou delirium de maneira comprovada.

O ponto mais interessante é que o benefício parece atingir ao mesmo tempo o paciente e o familiar — algo especialmente relevante no contexto da síndrome pós-cuidados intensivos (PICS) e da sua versão familiar (PICS-F).

02 O estudo mais importante: paciente E família

Em 2025, Cook e colaboradores publicaram no *Critical Care Explorations* (periódico da Society of Critical Care Medicine) o estudo Pawsitive Care — provavelmente a evidência clínica direta mais importante hoje sobre o tema em UTI adulta. Foi um estudo prospectivo, de centro único, com desenho pré–pós: 70 pacientes, 71 familiares (141 participantes), em sessões individuais com cão terapêutico de pelo menos 15 minutos.

Nos pacientes, a ansiedade mediana (escala VAS-A, de 0 a 10) caiu de 5 para 0 após a sessão (p < 0,001) — magnitude impressionante para ~15 minutos. Nos familiares, caiu de 6 para 3, e cerca de 93% tiveram redução de pelo menos 2 pontos (uma mudança clinicamente perceptível).

A ressalva metodológica

Não havia grupo controle randomizado. Parte da redução pode vir de atenção, distração, interação social ou regressão à média — e não do cão isoladamente. Ainda assim, a magnitude do efeito e a consistência entre pacientes e familiares tornam o achado difícil de ignorar.

03 A família também é paciente

A internação de um familiar em UTI é reconhecidamente traumática: pode gerar ansiedade, depressão, estresse agudo, transtorno de estresse pós-traumático, insônia e luto complicado — o conjunto hoje chamado de PICS-F. O estudo de Cook não prova prevenção do PICS-F a longo prazo (mediu o efeito agudo), mas mostra que uma intervenção simples reduziu a ansiedade de quem está no leito e de quem está ao lado. Isso transforma a visita pet em algo maior do que entretenimento: uma intervenção não farmacológica de suporte psicossocial centrada na família.

04 Dor pareceu melhorar — com cuidado

No mesmo estudo, a dor relatada pelos pacientes também caiu de forma significativa após a interação. Mas a interpretação exige cautela: muitos tinham dor basal zero (um importante *floor effect*), então não podemos chamar isso de analgésico. O mecanismo provável é indireto: atenção → emoção positiva → distração → menos ameaça percebida → modulação da experiência de dor. Como a dor é fortemente influenciada por ansiedade, expectativa e sensação de segurança, a associação é fisiologicamente plausível.

05 Benefício sem alterar os sinais vitais

No Pawsitive Care não houve mudança significativa de frequência cardíaca, frequência respiratória ou pressão arterial. Isso é cientificamente interessante: não precisamos de uma queda da FC ou da PA para considerar a intervenção eficaz. Ansiedade é um desfecho clínico por si só. Talvez seja aí que a medicina intensiva tradicional tenha um ponto cego: medimos muito bem PAM, lactato, débito cardíaco, SpO₂ e creatinina — mas essas variáveis não descrevem todo o sofrimento da pessoa dentro do leito.

06 As crianças reforçam o achado

No Hospital 12 de Octubre (Madri), publicado no *European Journal of Pediatrics* em 2024: 61 crianças em 74 sessões — dor, medo e ansiedade caíram significativamente (p < 0,01), com nota média de satisfação de 9,69/10 e sem eventos adversos. E um ensaio randomizado no *JAMA Network Open* (2025), em pronto-socorro pediátrico, mostrou quase o dobro de crianças com alívio clinicamente importante da ansiedade no grupo com cão (46% vs 23%). Por ser randomizado, reduz muito o problema do efeito placebo presente nos estudos pré–pós.

07 Por que um cachorro faria isso?

Provavelmente não existe um único mecanismo — existem pelo menos quatro:

08 O que ainda NÃO podemos prometer

Aqui é preciso separar plausibilidade de evidência. Não há dados adequados de que a visita reduza delirium, necessidade de sedação/opioides, tempo de ventilação mecânica, permanência na UTI ou mortalidade. São hipóteses interessantes para pesquisa — não alegações clínicas estabelecidas. E talvez nem devêssemos exigir isso de uma intervenção de humanização: seria como perguntar se segurar a mão do paciente reduz mortalidade. Ausência de grandes estudos não é o mesmo que ausência de benefício.

09 Seguro — dentro de um protocolo

Segurança e infecção

O maior receio sempre foi infecção, e o risco teórico existe (MRSA, enterobactérias, zoonoses). Mas a transmissão documentada em programas estruturados é escassa. CDC e SHEA recomendam: animal saudável, vacinado e limpo; seleção adequada do paciente; participação do controle de infecção (CCIH); supervisão; e, sobretudo, higiene das mãos após o contato.

Na prática, o certo não é 'deixar o cachorro entrar na UTI', mas montar um Programa protocolizado de Visita Assistida por Animais: seleção do paciente → autorização médica → avaliação da enfermagem → CCIH quando indicado → triagem veterinária do animal → visita supervisionada → higiene das mãos → registro de intercorrências. Merecem cautela ou contraindicação: imunossupressão grave, neutropenia, alergia/asma a animais, fobia, feridas extensas, dispositivos que possam ser tracionados e instabilidade clínica.

E há um movimento internacional: publicações de 2026 em *Critical Care* (grupo de pacientes e familiares da sociedade francesa de terapia intensiva) e um posicionamento de sociedade alemã já discutem a introdução segura de pets como estratégia de humanização. O tema deixou de ser curiosidade e entrou na pauta de qualidade em medicina intensiva.

Talvez a visita de um pet não mude a doença. Mas pode mudar profundamente a experiência de estar doente. E, dentro de uma UTI, isso também é cuidado.
Referências
Cook K, Robertson C, Gudivada K, et al. Pawsitive Care: Canine-Assisted Intervention for Anxiety in ICU Patients and Family Members. Crit Care Explor. 2025;7:e1258.
López-Fernández E, et al. Implementation feasibility of animal-assisted therapy in a pediatric intensive care unit: effectiveness on reduction of pain, fear, and anxiety. Eur J Pediatr. 2024;183:843–851.
Kelker HP, et al. Therapy Dogs for Anxiety in Children in the Emergency Department: A Randomized Clinical Trial. JAMA Netw Open. 2025.
Fiore M, et al. Risks and benefits of animal-assisted interventions for critically ill patients admitted to intensive care units. J Anesth Analg Crit Care. 2023;3:15.
Lovell T, Ranse K. Animal-assisted activities in the intensive care unit: a scoping review. Intensive Crit Care Nurs. 2022;73:103304.
Mittly V, et al. The role of dog therapy in clinical recovery and improving quality of life: a randomized, controlled trial. BMC Complement Med Ther. 2024;24:229.
Wicky PH, et al. Enhancing humanized care in French ICUs: the potential benefit of welcoming pet visitors. Critical Care. 2026;30:213.
CDC. Animals in Health-Care Facilities (atualização 2024). · SHEA. Animals in Healthcare Facilities: Recommendations to Minimize Potential Risks.

Conteúdo educativo — não substitui avaliação médica individualizada e não orienta iniciar, ajustar ou suspender qualquer conduta. O principal estudo em UTI adulta é prospectivo pré–pós, sem randomização, e mede efeito imediato. Programas de visita assistida por animais exigem protocolo, seleção de pacientes e participação do controle de infecção.

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