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Testosterona · Risco cardiovascular

Testosterona sem indicação: o novo alerta cardiovascular

O maior estudo de vida real já feito sobre o tema. A manchete é dura: homens que começaram testosterona sem hipogonadismo documentado tiveram 51% mais eventos cardiovasculares e quase o dobro de mortalidade. Mas o estudo tem uma armadilha metodológica importante — e não diz que toda reposição faz mal.

Dr. Hugo Faria · Cardiologia · Julho 2026 · Leitura de 4 min

01 O que foi estudado

Estudo retrospectivo de vida real, a partir de prontuários de 123 organizações de saúde: 358.957 homens de 30 a 75 anos que iniciaram testosterona. Destes, 35,4% começaram sem hipogonadismo documentado. Foram pareados 113.554 pares por escore de propensão, seguidos por até 10 anos.

02 O que encontraram

+51%
MACE (infarto, AVC, morte CV): 16,53% vs. 11,83% — HR 1,51
+90%
Mortalidade por todas as causas — HR 1,90
+41%
Parada cardíaca — HR 1,41
+32%
Insuficiência cardíaca — HR 1,32
4,7 / 100
Em números absolutos: ~4,7 eventos a mais para cada 100 homens no seguimento

03 A armadilha do título

O ponto mais importante: "sem evidência de hipogonadismo" não é a mesma coisa que "testosterona normal". O trabalho comparou homens com o diagnóstico registrado no prontuário com homens sem esse registro — não eugonadais comprovados contra hipogonádicos comprovados.

A ausência de registro não equivale à ausência da doença. A palavra off-label no título é mais forte do que um banco de dados administrativo consegue provar caso a caso.

04 Os dois grupos usaram testosterona

Detalhe decisivo: não houve grupo sem tratamento. Todos tomaram testosterona. O estudo mostra que, entre usuários, quem não tinha indicação documentada se saiu pior — mas não compara usar contra não usar. E o prontuário não enxerga o que mais importa: dose suprafisiológica, anabolizante associado, hormônio comprado fora, pouca monitorização. Isso provavelmente explica parte do excesso de eventos.

05 Como conversa com o TRAVERSE

TRAVERSE (randomizado)

Homens com hipogonadismo verdadeiro, gel titulado, níveis fisiológicos, seguimento protocolizado. Não inferior ao placebo no desfecho CV.

Este estudo (Kerniss)

Prática real, várias doses e formulações, uso possivelmente sem diagnóstico. Pior prognóstico em quem foi tratado sem indicação.

A leitura integrada: reposição fisiológica, bem indicada e monitorizada tem um perfil cardiovascular diferente do uso indiscriminado ou suprafisiológico. Segurança em hipogonadismo não é a mesma coisa que segurança em homem eugonadal.

06 Meu posicionamento

A testosterona não deve ser demonizada quando há hipogonadismo bem documentado. E não deve ser banalizada como ferramenta de vitalidade, estética ou longevidade. O sinal é forte o bastante para uma conclusão que eu assino: prescrever testosterona sem indicação bem estabelecida não é uma conduta cardiovascularmente neutra.

Referências
Kerniss H, Curman P, Olbrich H, et al. Off-label testosterone therapy is associated with higher long-term cardiovascular risk in men. eBioMedicine. 2026;130:106373. PMID 42424704. · Lincoff AM, et al. TRAVERSE. NEJM 2023.

Material educativo — não substitui consulta nem prescrição. Não inicie, interrompa ou ajuste hormônios por conta própria.

Reposição hormonal com segurança

Indicação correta, dose fisiológica e monitorização cardiovascular — é isso que separa tratar de apenas usar.

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