Testosterona faz mal ao coração?
Por anos, o medo de infarto e AVC foi a maior preocupação na reposição. Em 2023, o TRAVERSE trouxe a evidência randomizada mais forte até hoje. Mas a conclusão não é simplesmente "é segura" — é mais precisa e mais útil do que isso.
A conclusão correta do TRAVERSE não é "testosterona é segura". É esta: em homens com sintomas, deficiência confirmada e alto risco cardiovascular, a reposição para níveis fisiológicos não aumentou os grandes eventos cardiovasculares no período estudado.
01 O desenho do TRAVERSE
O estudo incluiu 5.246 homens de 45 a 80 anos com sintomas, duas dosagens abaixo de 300 ng/dL e doença cardiovascular ou alto risco. Receberam gel de testosterona ou placebo, com dose ajustada para faixa fisiológica. O desfecho principal (morte cardiovascular, infarto não fatal, AVC não fatal) ocorreu em 7,0% com testosterona e 7,3% com placebo — não inferior.
Homens com hipogonadismo confirmado, inclusive com risco cardiovascular elevado, podem receber reposição fisiológica sem aumento dos grandes eventos no período analisado. Isso é diferente de dizer que a testosterona previne eventos — o estudo foi desenhado para segurança, não para provar proteção.
02 O que ele NÃO estudou
- homens com testosterona normal
- uso por cansaço sem diagnóstico
- doses suprafisiológicas e ciclos
- combinações de anabolizantes
- tratamento sem monitorização e por décadas
03 Sinais de atenção
Alguns eventos foram mais frequentes com testosterona: fibrilação atrial, embolia pulmonar e lesão renal aguda. Eram desfechos secundários, mas mostram que segurança não é ausência de risco.
A testosterona também estimula a produção de glóbulos vermelhos: pode corrigir anemia, mas elevar demais o hematócrito — maior risco com injetáveis, doses altas, apneia e tabagismo. E pode elevar a pressão em alguns pacientes. Por isso o acompanhamento não se limita a testosterona e PSA.
04 O que acontece sem indicação
No estudo de 2026, homens tratados sem evidência de hipogonadismo tiveram MACE de 16,53% vs 11,83%, com HR de 1,51 para eventos cardiovasculares, 1,90 para mortalidade, 1,23 para AVC isquêmico, 1,41 para parada cardíaca e 1,32 para insuficiência cardíaca. É observacional — não prova causa —, mas mostra que a segurança depende do contexto.
05 Uso estético e testosterona muito baixa
- mais infarto e arritmias
- trombose
- insuficiência cardíaca
- cardiomiopatia (~9×)
- disfunção sexual, anemia
- perda muscular e óssea
- fragilidade
- maior mortalidade (associação)
A metanálise de 2024 associou níveis muito baixos a maior mortalidade — mas associação não é causa. Elevar um marcador não significa, automaticamente, reduzir o risco ligado a ele.
06 Quem exige cautela e o que monitorizar
Doença cardiovascular estável não é contraindicação automática — o próprio TRAVERSE incluiu esses pacientes. Mas pedem cautela: infarto/AVC recente, insuficiência cardíaca descompensada, hipertensão não controlada, arritmias, trombofilia, hematócrito elevado, apneia grave, doença prostática não investigada e desejo de fertilidade. O acompanhamento inclui sintomas, testosterona, hemograma/hematócrito, pressão, próstata conforme idade, fertilidade e a dose realmente usada.
Testosterona não é vilã. Também não é suplemento. É terapia médica — e, como toda terapia, depende de quem precisa, de quanto precisa e de como se acompanha. Encerra-se aqui a Semana da Testo: sem tabu, sem exageros e com ciência.
Conteúdo educativo — não substitui avaliação médica individualizada e não orienta iniciar, ajustar ou suspender qualquer tratamento. O TRAVERSE avaliou reposição fisiológica em hipogonadismo confirmado e não autoriza uso sem diagnóstico; os estudos de uso sem indicação, de anabolizantes e a metanálise de testosterona baixa são observacionais (associação, não causa).
Seu coração entra na conta da testosterona?
Uma avaliação cardiológica que pesa risco, próstata, hematócrito e pressão antes e durante a reposição — para que testosterona seja terapia segura, não aposta.
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