← Publicações
Saúde masculina · Diagnóstico · Evidência

O exame veio baixo. Você precisa de reposição?

Encontrou a testosterona abaixo do valor de referência e a conclusão parece imediata: preciso repor. Mas não necessariamente. O hormônio varia, o número engana e o diagnóstico exige mais do que uma linha no exame.

Dr. Hugo Faria · Cardiologia · Semana da Testo · D2 · Leitura de 6 min

A concentração de testosterona varia entre os dias e ao longo do dia. Também sofre influência de sono, alimentação, obesidade, doença aguda, medicamentos, restrição calórica, treino intenso e do próprio método laboratorial. Por isso, um resultado isolado não deve bastar para iniciar uma terapia hormonal.

01 Diagnóstico exige sintomas e repetição

As principais diretrizes concordam: o diagnóstico combina sintomas ou sinais compatíveis, testosterona inequivocamente baixa, confirmação em outra coleta e investigação da causa.

A fórmula do diagnóstico

Sintomas compatíveis + duas dosagens baixas bem colhidas + interpretação da SHBG + investigação da causa. Só depois se discute repor.

02 Como dosar corretamente

Em quem trabalha à noite, o horário deve seguir o principal período de sono — não o relógio convencional.

03 Existe um número único?

Não há um ponto de corte universal. A AUA usa testosterona total abaixo de 300 ng/dL como apoio; a EAU trabalha próximo de 12 nmol/L (~346 ng/dL). Esses valores não valem isolados: um homem com 295 não está automaticamente doente, nem um com 310 automaticamente saudável. Importam sintomas, repetição, método, SHBG, idade e contexto.

04 Testosterona total é suficiente? O papel da SHBG

A maior parte da testosterona circula ligada à SHBG e à albumina. Quando a SHBG está alterada, a testosterona total pode não representar a real disponibilidade do hormônio:

SHBG reduzida
  • obesidade e resistência à insulina
  • diabetes tipo 2
  • hipotireoidismo
  • uso de glicocorticoides
SHBG elevada
  • envelhecimento
  • hipertireoidismo
  • uso de estrogênios
  • baixo peso

Quando a total está no limite ou a SHBG provavelmente alterada, pode ser útil avaliar a testosterona livre por método confiável ou calculá-la.

05 O caso da obesidade

Homens com obesidade frequentemente têm testosterona total e SHBG reduzidas — o que não significa falência testicular. Quando LH e FSH estão normais, essa queda leve a moderada costuma ser interpretada como um pseudo-hipogonadismo da obesidade. Tratar apenas o número pode expor a infertilidade, aumento do hematócrito, estado pró-trombótico e supressão da produção própria.

06 Confirmou? Agora investigue a causa

LH e FSH ajudam a diferenciar a origem:

Primário (testicular)
  • testosterona baixa
  • LH e FSH altos
  • problema no testículo
Secundário (central)
  • testosterona baixa
  • LH e FSH baixos ou normais
  • hipotálamo/hipófise

Conforme o caso, também entram prolactina, ferro, tireoide, hemograma, glicemia, avaliação do sono e espermograma.

Reposição não deve começar para corrigir um número. Deve começar quando existe diagnóstico, indicação e acompanhamento.

Um exame baixo não é, por si só, hipogonadismo — e hipogonadismo não significa que a primeira conduta seja repor. Amanhã: afinal, por que a testosterona diminuiu?

Referências
Bhasin S, Brito JP, Cunningham GR, et al. Testosterone Therapy in Men With Hypogonadism: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2018;103:1715–1744.
Mulhall JP, Trost LW, Brannigan RE, et al. Evaluation and Management of Testosterone Deficiency: AUA Guideline. J Urol. 2018;200:423–432. DOI: 10.1016/j.juro.2018.03.115.
Muir CA, Wittert GA, Handelsman DJ. Approach to the Patient: Low Testosterone Concentrations in Men With Obesity. J Clin Endocrinol Metab. 2025;110:e3125–e3130. DOI: 10.1210/clinem/dgaf137.
European Association of Urology. EAU Guidelines on Sexual and Reproductive Health: Male Hypogonadism. 2026.
Kerniss H, Curman P, Olbrich H, et al. Off-label testosterone therapy is associated with higher long-term cardiovascular risk in men. eBioMedicine. 2026;130:106373. DOI: 10.1016/j.ebiom.2026.106373.

Conteúdo educativo — não substitui avaliação médica individualizada e não orienta iniciar, ajustar ou suspender qualquer tratamento. Pontos de corte e interpretação laboratorial devem ser aplicados por um médico no contexto de cada paciente.

Antes de repor, seu exame foi interpretado?

Uma avaliação que confirma o resultado, interpreta a SHBG e investiga a causa — para que a decisão de repor (ou não) seja segura e individualizada.

Agendar avaliação