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Saúde masculina · Cardiologia · Evidência

Testosterona: de tabu a tratamento — mas não para todo mundo

Durante anos, a reposição foi cercada pelo medo de infarto, AVC e câncer de próstata. Depois virou promessa de juventude e performance. As evidências atuais mostram que os dois extremos estão errados — e abrem a Semana da Testo: testosterona sem tabu, sem exageros e com ciência.

Dr. Hugo Faria · Cardiologia · Semana da Testo · D0 · Leitura de 6 min

Durante muitos anos, falar em reposição de testosterona era quase um tabu. Existia o receio de que o tratamento pudesse aumentar o risco de infarto, AVC, trombose ou câncer de próstata. Diante da incerteza, muitos homens com deficiência hormonal verdadeira ficaram sem tratamento. Nos últimos anos, estudos mais robustos começaram a mudar essa visão — sem, no entanto, liberar o uso para todos.

01 O que mudou: o estudo TRAVERSE

O principal deles foi o TRAVERSE, publicado em 2023. Avaliou 5.246 homens de 45 a 80 anos, com sintomas, duas dosagens de testosterona abaixo de 300 ng/dL e doença cardiovascular estabelecida ou alto risco. Os participantes receberam gel de testosterona ou placebo, com a dose ajustada para manter níveis fisiológicos.

A reposição não aumentou o desfecho combinado de morte cardiovascular, infarto não fatal ou AVC não fatal: os eventos ocorreram em 7,0% do grupo testosterona e 7,3% do placebo. O recado foi importante — homens com hipogonadismo confirmado, mesmo com risco cardiovascular elevado, podem receber reposição fisiológica sem aumento dos grandes eventos cardiovasculares no período estudado.

Segurança não é ausência de risco

Alguns eventos foram mais frequentes com testosterona: fibrilação atrial, embolia pulmonar e lesão renal aguda. Eram desfechos secundários e precisam de cautela na interpretação — mas mostram que estabilidade cardiovascular não significa risco zero.

02 O que o TRAVERSE NÃO estudou

O TRAVERSE respondeu a uma pergunta específica — e apenas a ela. Ficaram de fora justamente os cenários que mais aparecem no dia a dia:

03 Quando é prescrita sem necessidade

Um estudo publicado em 2026 (eBioMedicine) analisou 358.957 homens que iniciaram testosterona em 123 organizações de saúde. Mais de um terço — 35,4% — começou sem evidência documentada de hipogonadismo. Comparados aos homens tratados com hipogonadismo confirmado, o uso sem indicação associou-se a:

É um estudo observacional — não prova que a testosterona causou diretamente os eventos. Mas reforça uma distinção essencial: a segurança vista em quem tem hipogonadismo confirmado não deve ser estendida a quem é tratado sem indicação.

04 Quando o objetivo é estética

Usar testosterona e outros anabolizantes para ir além da fisiologia é outro cenário. Uma coorte de 2025 (Circulation) encontrou, entre usuários de esteroides anabolizantes, cerca de 3× mais infarto, aproximadamente 3,6× mais insuficiência cardíaca e risco quase 9× maior de cardiomiopatia, além de mais revascularização, trombose e arritmias.

Reposição não é anabolização

Na reposição, o objetivo é corrigir uma deficiência e restaurar níveis fisiológicos. No uso estético, busca-se ultrapassar a fisiologia para ganhar massa, definição ou performance. São práticas — e perfis de risco — diferentes.

05 Testosterona muito baixa também importa

Uma meta-análise de dados individuais de 2024 (Ann Intern Med) associou testosterona muito baixa a maior mortalidade geral e cardiovascular: o risco de morte por todas as causas subiu abaixo de cerca de 213 ng/dL, e a mortalidade cardiovascular em níveis ainda mais baixos, próximos de 153 ng/dL.

Associação não é causa. A testosterona baixa pode ser causa parcial, mas também consequência da obesidade, marcador de doença crônica, sinal de fragilidade ou resultado de inflamação. Elevar o número não corrige, por si só, o que o número está sinalizando.

A ciência não transformou a testosterona em vilã — nem em solução para todos os homens. O benefício depende de diagnóstico, indicação, dose e acompanhamento.

Começa aqui a Semana da Testo. Nos próximos dias: sintomas que realmente sugerem deficiência, como interpretar um exame baixo, por que a testosterona diminui, a diferença entre reposição e uso estético, testosterona e câncer de próstata, e o que o TRAVERSE mostrou sobre o coração.

Referências
Lincoff AM, Bhasin S, Flevaris P, et al. Cardiovascular Safety of Testosterone-Replacement Therapy (TRAVERSE). N Engl J Med. 2023;389:107–117. DOI: 10.1056/NEJMoa2215025.
Kerniss H, Curman P, Olbrich H, et al. Off-label testosterone therapy is associated with higher long-term cardiovascular risk in men. eBioMedicine. 2026;130:106373. DOI: 10.1016/j.ebiom.2026.106373.
Windfeld-Mathiasen J, Heerfordt IM, Dalhoff KP, et al. Cardiovascular Disease in Anabolic Androgenic Steroid Users. Circulation. 2025;151(12):828–834. DOI: 10.1161/CIRCULATIONAHA.124.071117.
Yeap BB, Marriott RJ, Dwivedi G, et al. Associations of Testosterone and Related Hormones With All-Cause and Cardiovascular Mortality and Incident Cardiovascular Disease in Men. Ann Intern Med. 2024;177:768–781. DOI: 10.7326/M23-2781.
Bhasin S, Brito JP, Cunningham GR, et al. Testosterone Therapy in Men With Hypogonadism: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2018;103:1715–1744.

Conteúdo educativo — não substitui avaliação médica individualizada e não orienta iniciar, ajustar ou suspender qualquer tratamento. Os estudos de uso sem indicação e de anabolizantes são observacionais: mostram associação, não relação de causa. O TRAVERSE avaliou reposição fisiológica em homens com hipogonadismo confirmado e não autoriza o uso sem diagnóstico.

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