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Saúde masculina · Tratamento · Evidência

Reposição de testosterona: tratamento ou estética?

Homens com sintomas, deficiência comprovada e acompanhamento podem se beneficiar da reposição. Mas essa mudança criou outro problema: testosterona oferecida como rejuvenescimento, emagrecimento e performance a quem não tem indicação. Não são a mesma coisa.

Dr. Hugo Faria · Cardiologia · Semana da Testo · D4 · Leitura de 7 min

Na reposição, o objetivo é restaurar concentrações fisiológicas em um homem com deficiência. No uso estético ou esportivo, busca-se ultrapassar a fisiologia para ganhar massa, força ou definição acima do normal. São contextos — e riscos — diferentes.

01 Quem pode se beneficiar

Idade isolada não é indicação. Cansaço, dificuldade de ganhar músculo ou desejo de melhorar a aparência também não bastam.

02 Benefícios com melhor respaldo

Em homens com hipogonadismo verdadeiro, a reposição tende a melhorar sobretudo a função sexual (libido, atividade sexual, ereções espontâneas). Pode corrigir alguns casos de anemia, aumentar a massa magra e a densidade óssea.

Cuidado com a promessa dos ossos

A terapia pode aumentar a densidade óssea, mas o subestudo de fraturas do TRAVERSE não mostrou redução das fraturas clínicas — houve, inclusive, mais fraturas no grupo testosterona. Não é correto prometer que testosterona previne fraturas. E, sobre vitalidade e cognição, os efeitos são variáveis e muitas vezes não significativos.

03 O que NÃO deve ser prometido

04 Reposição não é anabolização

O TRAVERSE avaliou homens com sintomas e duas dosagens abaixo de 300 ng/dL, com dose ajustada para níveis fisiológicos. Ele não avaliou ciclos, doses suprafisiológicas nem combinações de anabolizantes.

O que o uso estético mostra

Entre usuários de anabolizantes, uma coorte de 2025 encontrou cerca de 3× mais infarto, mais arritmias e trombose, aproximadamente 3,6× mais insuficiência cardíaca e risco quase 9× maior de cardiomiopatia. Reposição fisiológica e anabolização não pertencem à mesma categoria.

05 Fertilidade

Testosterona exógena reduz LH e FSH, diminui a testosterona dentro do testículo e pode causar oligozoospermia, azoospermia, redução testicular e infertilidade. Homens que desejam ter filhos não devem iniciar sem avaliação reprodutiva — e a recuperação após parar leva meses e não é igual para todos.

06 A dose faz parte da indicação

O objetivo não é atingir o maior número possível, e sim restaurar uma faixa fisiológica com a menor exposição necessária. Níveis excessivos aumentam hematócrito, pressão, acne, edema, alterações de humor, infertilidade e risco cardiovascular. Gel, injeção ou implante não têm um vencedor universal — a escolha depende de adesão, estabilidade, custo, efeitos e possibilidade de ajuste.

Sem deficiência, o risco muda

Um estudo de 2026 encontrou maior risco cardiovascular e mortalidade quando a terapia foi iniciada sem evidência de hipogonadismo. É observacional — não prova causa — mas confirma que a segurança depende do contexto. Testosterona normal não precisa ser otimizada.

O que separa tratamento de anabolização é diagnóstico, objetivo, dose, nível atingido e acompanhamento.

Reposição é um tratamento legítimo para quem tem deficiência verdadeira — não um recurso universal para envelhecimento, obesidade ou performance. Amanhã, o encerramento: testosterona faz mal ao coração? O que o TRAVERSE realmente mostrou.

Referências
Bhasin S, Brito JP, Cunningham GR, et al. Testosterone Therapy in Men With Hypogonadism: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2018;103:1715–1744.
Snyder PJ, Bhasin S, Cunningham GR, et al. Effects of Testosterone Treatment in Older Men (The Testosterone Trials). N Engl J Med. 2016;374:611–624. DOI: 10.1056/NEJMoa1506119.
Snyder PJ, Bhasin S, Cunningham GR, et al. Testosterone Treatment and Fractures in Men With Hypogonadism (TRAVERSE fracture substudy). N Engl J Med. 2024;390:203–211. DOI: 10.1056/NEJMoa2308836.
Windfeld-Mathiasen J, Heerfordt IM, Dalhoff KP, et al. Cardiovascular Disease in Anabolic Androgenic Steroid Users. Circulation. 2025;151(12):828–834. DOI: 10.1161/CIRCULATIONAHA.124.071117.
Kerniss H, Curman P, Olbrich H, et al. Off-label testosterone therapy is associated with higher long-term cardiovascular risk in men. eBioMedicine. 2026;130:106373. DOI: 10.1016/j.ebiom.2026.106373.

Conteúdo educativo — não substitui avaliação médica individualizada e não orienta iniciar, ajustar ou suspender qualquer tratamento. Os estudos de uso sem indicação e de anabolizantes são observacionais e mostram associação, não causa. Decisões sobre reposição, dose e formulação devem ser individualizadas e monitorizadas.

Reposição de verdade tem indicação e dose certa.

Uma avaliação que define se há indicação, escolhe a menor dose fisiológica eficaz e monitoriza risco, próstata e fertilidade — longe do modismo estético.

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