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Semana da Estatina · Cardiologia

Dor muscular e estatina: quanto desse efeito é do remédio?

A dor muscular é provavelmente o efeito adverso mais conhecido das estatinas, e uma das principais razões pelas quais pacientes interrompem o tratamento. Mas existe uma diferença importante entre apresentar dor enquanto se toma uma estatina e demonstrar que a estatina foi realmente a causa daquela dor.

Dr. Hugo Faria · Cardiologia · Agosto 2026 · Leitura de 5 min

01 A estatina pode causar sintomas musculares?

Sim. O espectro pode variar desde desconforto muscular sem elevação de creatinoquinase até quadros extremamente raros de lesão muscular grave. A boa notícia é que miopatia importante e rabdomiólise são muito raras: a declaração científica da American Heart Association estimou risco de lesão muscular grave relacionada às estatinas inferior a 0,1%.

Por outro lado, dores musculares são extremamente comuns na população geral. Treinamento físico, alterações musculoesqueléticas, hipotireoidismo, deficiência de vitamina D em determinadas situações, infecções, outras medicações e diversas condições podem produzir sintomas semelhantes. É nesse contexto que surge o chamado efeito nocebo.

02 O que é efeito nocebo

Nocebo ocorre quando a expectativa de que uma intervenção provoque determinado sintoma contribui para que esse sintoma seja percebido ou intensificado. Isso não significa que o paciente esteja "inventando" a dor. A dor é real. O que pode não existir é uma relação farmacológica direta entre o medicamento e aquele sintoma.

03 O que mostram os ensaios cegos

O estudo SAMSON ilustrou muito bem esse fenômeno. Pacientes que anteriormente haviam interrompido estatinas por efeitos adversos receberam, de maneira cega e alternada, períodos de atorvastatina, de placebo e de ausência de comprimidos. Uma grande proporção dos sintomas observados durante o tratamento com estatina também ocorreu durante o uso de placebo.

Outras análises de ensaios clínicos randomizados também demonstraram que o excesso absoluto de sintomas musculares atribuível farmacologicamente às estatinas é consideravelmente menor do que sugerem os relatos obtidos fora de estudos cegos.

04 O que fazer quando aparece dor

Não é adequado simplesmente dizer que "não é a estatina". Também não é adequado concluir imediatamente que a pessoa jamais poderá utilizar qualquer estatina. A avaliação pode envolver diferentes elementos:

O que avaliar
  • Relação temporal entre início e sintomas
  • Localização e padrão da dor; dose utilizada
  • Interações medicamentosas; função tireoidiana
  • Intensidade do exercício físico; CK quando indicada
Estratégias possíveis
  • Retirada temporária e reintrodução em casos selecionados
  • Tentativa de outra estatina
  • Outro esquema de administração
  • Manter, quando possível, a proteção cardiovascular

O objetivo é descobrir se existe uma intolerância verdadeira e, quando possível, encontrar um regime que mantenha a proteção cardiovascular. Sentir dor depois de começar uma estatina não prova automaticamente que ela seja a causa, mas a queixa merece ser investigada.

Não é adequado dizer que "não é a estatina", nem que a pessoa nunca mais poderá usar uma. A intolerância verdadeira existe, mas é menos frequente do que muita gente imagina.
Referências
Wood FA, et al. N-of-1 Trial of a Statin, Placebo, or No Treatment to Assess Side Effects (SAMSON). New England Journal of Medicine. 2020.
Reith C, et al. Effect of statin therapy on muscle symptoms: individual participant data meta-analysis of randomised, double-blind trials. The Lancet. 2022.
Newman CB, et al. Statin Safety and Associated Adverse Events: A Scientific Statement From the American Heart Association. Arteriosclerosis, Thrombosis, and Vascular Biology. 2019.

Material educativo; não substitui consulta nem avaliação individual e não orienta iniciar, ajustar ou suspender qualquer tratamento. Não interrompa a estatina por conta própria; procure avaliação médica.

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Dor muscular ao usar estatina?

Vale investigar a causa, avaliar outras possibilidades e, quando necessário, ajustar dose, molécula ou estratégia, sem abrir mão da proteção cardiovascular.

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