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Cardiologia · Prevenção · ESC 2026

Estatina depois dos 70 ainda vale a pena?

Acaba de ser apresentado no Congresso Europeu de Cardiologia um dos estudos mais aguardados sobre prevenção no idoso. O STAREE responde a uma pergunta antiga: vale iniciar estatina depois dos 70 em quem nunca teve infarto ou AVC? A resposta é relevante, e mais sofisticada do que “todo idoso precisa tomar”.

Dr. Hugo Faria · Cardiologia · Agosto 2026 · Leitura de 6 min

01 Por que esse estudo era tão aguardado

As estatinas estão entre os medicamentos mais estudados da cardiologia. Em quem já teve doença cardiovascular, o benefício é inequívoco; e há ampla evidência para prevenção em adultos de meia-idade com fatores de risco. O problema sempre esteve nos pacientes mais idosos: depois dos 70 ou 75 anos, havia muito menos ensaios desenhados para prevenção primária. Ou seja, justamente quando a idade eleva o risco, a evidência ficava menos robusta. O STAREE foi feito para preencher essa lacuna.

02 Como o STAREE foi realizado

O estudo incluiu 9.971 participantes com 70 anos ou mais, recrutados na Austrália e vivendo de forma independente. Um ponto essencial é quem eram: pessoas sem doença cardiovascular conhecida, sem diabetes e sem demência. Foram randomizados para atorvastatina 40 mg/dia ou placebo, com acompanhamento mediano de cerca de 5,9 anos. É um ensaio randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, exatamente o tipo de estudo necessário.

03 O resultado principal: 30% menos eventos

30%
redução relativa de eventos cardiovasculares maiores

O primeiro desfecho reuniu morte cardiovascular, infarto não fatal, AVC ou revascularização coronária. Os eventos ocorreram em cerca de 6,0% com atorvastatina contra 8,3% com placebo (HR 0,70; IC95% 0,61–0,82). Ou seja, aproximadamente 30% de redução relativa dos grandes eventos cardiovasculares.

04 Risco relativo não é risco absoluto

É preciso interpretar o número corretamente. “30%” é a redução relativa. Em termos absolutos, 8,3% → 6,0%, uma diferença de cerca de 2,3 pontos percentuais em seis anos. O benefício individual depende muito do risco cardiovascular basal: em quem tem risco alto, a redução absoluta tende a ser maior; em alguém com risco muito baixo, fragilidade importante ou expectativa de vida limitada, a relação benefício–tratamento pode ser bem diferente.

05 De onde veio o benefício

O efeito não se distribuiu por igual. O sinal foi especialmente forte para infarto do miocárdio e revascularização coronária. Por outro lado, o estudo não demonstrou redução significativa de mortalidade cardiovascular. Portanto, dizer que o STAREE mostrou “30% menos mortes cardiovasculares” seria incorreto: ele mostrou 30% menos eventos no desfecho composto, sobretudo à custa de eventos coronarianos.

06 E os pacientes viveram mais, e melhor?

Aqui está a parte mais interessante. Havia um segundo desfecho primário, combinando morte por qualquer causa, demência e incapacidade física persistente. O resultado: 12,8% no grupo atorvastatina contra 13,6% no placebo (HR 0,94; IC95% 0,84–1,05), sem diferença significativa na sobrevida livre de incapacidade.

Por que menos infartos não virou mais anos sem incapacidade

Nos mais velhos, diferentes doenças competem como causas de adoecer e morrer. No STAREE, cerca de 80% das mortes foram por causas não cardiovasculares. Uma estatina reduz aterosclerose e infarto, mas não modifica câncer, doenças neurodegenerativas, infecções ou fragilidade. É o conceito de competing risk.

07 Estatina aumenta o risco de demência?

O STAREE também ajuda com um medo frequente. Durante anos criou-se a percepção de que estatinas ou colesterol muito baixo poderiam prejudicar a cognição. O estudo não encontrou aumento de demência com a atorvastatina. Ao mesmo tempo, não demonstrou prevenção de demência. A leitura correta: nem benefício cognitivo, nem sinal de dano, em quase 10 mil idosos acompanhados por anos.

08 E os efeitos adversos?

Eventos adversos graves ocorreram em cerca de 2,7% em ambos os grupos, uma mensagem tranquilizadora sobre segurança global. Alguns eventos específicos foram mais frequentes com a atorvastatina, sobretudo musculoesqueléticos, hepatobiliares e relacionados ao diabetes. Isso também faz parte da conversa: nenhuma intervenção se avalia só pelos benefícios. Pesa benefício absoluto, risco de efeitos adversos, polifarmácia, fragilidade, expectativa de vida e preferência do paciente.

09 Então todo idoso deveria tomar estatina?

Não. Seria uma leitura inadequada. O STAREE incluiu idosos relativamente saudáveis e independentes, sem doença CV, diabetes ou demência. Não se pode extrapolar para quem tem fragilidade avançada, demência estabelecida, doença terminal, expectativa de vida muito curta ou polifarmácia complexa. Mas ele responde outra pergunta importante: ter 70 ou 75 anos não significa que é tarde demais para prevenir.

10 A idade não é uma data de validade

Esse é o principal ensinamento. Duas pessoas de 75 anos podem ser completamente diferentes: uma independente, ativa e com longa expectativa de vida; outra frágil, com múltiplas doenças e horizonte curto. A mesma prescrição não serve para as duas. A decisão deve considerar idade biológica, risco cardiovascular e tempo de benefício, não a idade do documento. Ferramentas como LDL, ApoB e o escore de cálcio coronário ajudam a individualizar. Na prevenção moderna, mais importante do que tratar a idade é tratar o risco.

Na prevenção cardiovascular, mais importante do que tratar a idade é tratar o risco.
Referências
Zoungas S, Wolfe R, Moran C, et al.; STAREE Investigators. Atorvastatin, Cardiovascular Events, and Disability-free Survival in Older Adults. N Engl J Med. 2026. DOI: 10.1056/NEJMoa2607314.
European Society of Cardiology. STAREE — Statins for Reducing Events in the Elderly. Hot Line, ESC Congress 2026.
American College of Cardiology. STAREE: Can Statin Therapy Help Prevent CV Events in Healthy, Community-Dwelling, Older Adults? ACC News, 2026.

Material educativo; não substitui consulta nem avaliação individual. O tratamento é individual e definido pelo médico. Não use medicamentos sem orientação.

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Prevenção não tem data de validade

Ter 70, 75 ou mais anos não encerra a prevenção cardiovascular. A decisão sobre estatina é individual e depende do seu risco, da sua independência e da sua expectativa de vida.

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