Aterosclerose antes dos 30 anos?
Um dos estudos de maior repercussão do Congresso Europeu de Cardiologia de 2026 mostrou algo que merece atenção: a aterosclerose pode estar presente décadas antes de causar qualquer sintoma, às vezes antes dos 30 anos.
01 A aterosclerose pode começar muito antes do que imaginamos
Quando pensamos em infarto, AVC ou doença arterial, é comum associá-los às décadas mais avançadas da vida. Mas o evento cardiovascular é apenas a manifestação final de um processo que pode estar evoluindo silenciosamente há muito tempo. O REACT, apresentado em sessão Hot Line no ESC Congress 2026 e publicado no New England Journal of Medicine, oferece uma fotografia detalhada disso: avaliou 16.808 adultos de 18 a 70 anos sem doença cardiovascular conhecida e encontrou aterosclerose silenciosa em 57,1% deles.
02 Já presente antes dos 30
Entre os participantes de 18 a 29 anos, cerca de 1 em cada 13 já apresentava aterosclerose em pelo menos um território arterial (aproximadamente 9% nos homens e 7% nas mulheres). À medida que a idade avançava, a prevalência subia de forma acentuada: entre 60 e 70 anos, aproximadamente 9 em cada 10 pessoas tinham aterosclerose, e o volume de placa também crescia. Ou seja: o infarto não é o momento em que a doença começa, mas quando ela finalmente se manifesta.
03 O que os pesquisadores fizeram de diferente
O REACT não se limitou a medir colesterol, pressão, diabetes e tabagismo para depois estimar a probabilidade de um evento. Os pesquisadores foram procurar diretamente a aterosclerose, investigando três territórios: carótidas, femorais e coronárias. Usaram ultrassom vascular tridimensional das carótidas e femorais e angiotomografia das coronárias (com status de calcificação), além de biomarcadores e outras análises. Isso muda a pergunta: em vez de “qual a probabilidade de um evento?”, passa a ser “a doença já está presente?”.
04 Risco cardiovascular não é o mesmo que presença de aterosclerose
Este é um dos pontos mais interessantes. Os escores tradicionais (idade, pressão, colesterol, tabagismo, diabetes) seguem importantes, mas têm uma limitação, sobretudo nos jovens. Uma pessoa de 30 anos com fatores de risco pode ter risco absoluto de curto prazo baixo e, ainda assim, já ter placas. O REACT mostrou exatamente isso, e destacou que métodos convencionais, incluindo o SCORE2, identificam apenas uma parcela de quem tem aterosclerose silenciosa.
Baixo risco de curto prazo e ausência de aterosclerose não são sinônimos. São perguntas relacionadas, mas diferentes.
05 Aterosclerose é uma doença sistêmica
Nos mais jovens, a placa aparecia mais nos territórios periféricos e geralmente limitada a um único território; com o envelhecimento, tornava-se mais extensa e multiterritorial. Além disso, doença exclusivamente coronariana foi incomum: a maioria de quem tinha placa nas coronárias também tinha nas carótidas ou femorais. Isso reforça que a aterosclerose é uma doença sistêmica das artérias, não apenas do coração. Como carótidas e femorais podem ser vistas por ultrassom (sem radiação), os autores levantam a hipótese de que aparelhos portáteis possam, no futuro, ajudar na detecção precoce, algo que ainda precisa ser validado.
06 Homens e mulheres não têm a mesma trajetória
Nos homens, a prevalência começou a subir mais cedo, com trajetória cerca de 5 a 10 anos adiantada em relação às mulheres. Nas mulheres, houve uma elevação particularmente acentuada entre os 40 e 60 anos, período que coincide aproximadamente com a transição menopausal. É uma observação importante, mas que descreve uma associação ligada à idade e ao sexo: o estudo não permite concluir que a menopausa, isoladamente, seja a causa da aceleração. É uma hipótese biologicamente plausível a ser investigada.
07 Onde entram o LDL e a ApoB
O estudo ajuda a entender um conceito central da prevenção moderna: a aterosclerose depende de exposição cumulativa. Não importa apenas o colesterol de hoje, mas por quanto tempo as artérias foram expostas às partículas aterogênicas. O LDL-C informa a quantidade de colesterol; a ApoB marca o número de partículas aterogênicas (LDL, IDL, remanescentes de VLDL e Lp(a)). A exposição prolongada a partículas com ApoB é central para a doença, por isso prevenção não deveria começar só ao atingir certa idade. E o REACT dá a demonstração anatômica: em algumas pessoas, o resultado já é visível antes dos 30.
08 Então todos deveriam procurar placas? Não
Essa distinção é essencial. O REACT demonstra a prevalência da aterosclerose subclínica. Ele não demonstrou que fazer imagem indiscriminadamente em toda a população reduza infarto, AVC ou mortalidade. Também não significa que todo jovem deva fazer angiotomografia, escore de cálcio ou ultrassom vascular. Vale lembrar que angiotomografia e escore de cálcio não são equivalentes: a angioTC usada no REACT também avalia componentes não calcificados. Transformar o achado em “todo jovem precisa de tomografia” seria uma interpretação inadequada.
09 O rastreamento precisa ser individualizado
É aqui que o REACT encontra a prática clínica. Na minha prática, prezo pelo rastreamento individualizado. Cada paciente tem uma combinação diferente de idade, história familiar, pressão, perfil metabólico, LDL, ApoB, Lp(a), tabagismo, composição corporal e atividade física. É a partir dessa avaliação que decidimos quais exames realmente acrescentam informação e mudam a conduta. Para um paciente, uma imagem pode ser muito útil; para outro, pode não estar indicada. Prevenção não é pedir todos os exames para todos: é saber o que procurar, em quem procurar e quando procurar.
10 A pergunta mais importante ainda será respondida
Há diferença entre mostrar que conseguimos encontrar aterosclerose cedo e provar que devemos procurá-la sistematicamente. A pergunta definitiva é: identificar a doença silenciosa e tratar mais cedo reduz infarto, AVC e morte? Ainda não sabemos. A primeira fase (REACT-DETECT) mapeou a doença; a etapa seguinte proposta (REACT-PROTECT) deverá testar uma prevenção guiada por imagem em um grande ensaio randomizado, previsto para 2027–2032. Enquanto isso, a lição já é valiosa: existe uma longa janela entre o início do processo e o primeiro sintoma, e é nela que a prevenção tem seu maior valor.
Material educativo; não substitui consulta nem avaliação individual. O tratamento é individual e definido pelo médico. Não use medicamentos sem orientação.
Prevenção começa antes do sintoma
Existe uma longa janela entre o início da aterosclerose e o primeiro evento. Entender o seu risco com uma avaliação individualizada é o que permite agir a tempo.
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